
A vista da foto acima foi feita a partir do porto de Pindjiguiti, o principal da Guiné-Bissau (clique nas fotos para vê-las ampliadas. Vale a pena).
O porto é famoso pelo episódio que ficou conhecido como o Massacre de Pindjiguiti.
No dia 3 de agosto de 1959, marinheiros e estivadores do porto fizeram uma manifestação contra as autoridades coloniais portuguesas e exigiram salários maiores.
Houve confronto e a polícia portuguesa atirou contra os manifestantes. Cinquenta e duas pessoas morreram.
Ao fundo, prédios decadentes do período colonial tentam sobreviver ao tempo na cidade velha de Bissau.
Na região do porto, igualmente decadente e suja, mora muita gente.
Também funcionam alguns restaurantes que atraem a população estrangeira do país, única com dinheiro disponível para pagar os preços cobrados.
Em Guiné-Bissau não há energia elétrica.
Soa estranho, mas é isso mesmo.
Por causa das guerras, dos conflitos, dos desmandos, dos desgovernos e da corrupção que enterraram o país na miséria, não há geração de energia no país.
À noite, as ruas ficam às escuras.
Dentro das casas, velas e candeeiros lançam alguma luz na noite dos guineenses.
Quem tem dinheiro compra ou aluga pequenos geradores.
Sem energia, pouca gente tem televisão.
Quem pode paga ingresso para assistir um capítulo de novela, um filme ou uma partida de futebol num dos vários salões desse tipo no país.
Um capítulo de novela custa 50 francos locais. Cerca de US$ 1.
O ingresso para um filme sobe para 100 francos.
Um jogo já custa 200 francos.
Em alguns salões, há dois, três ou mais aparelhos de televisão funcionando ao mesmo tempo.
Lembro um pouco aqueles bares no Brasil, com várias tvs sintonizadas nos diversos jogos do sábado e do domingo para atrair a clientela.
Geladeira, só quem tem gerador.
Não vale a pena.
Os produtos estragam.
Hotéis, restaurantes, embaixadas funcionam com gerador 24 horas por dia.
Uma fortuna.
O povo mesmo vive às escuras.
A chegada ao aeroporto foi tranquila.
Saímos de Praia cedo. Uma escala em Dakar antes de aterrar em Bissau.
Na saída do aeroporto, o rapaz que conferia os tíquetes das bagagens me pediu dinheiro.
Antes de entrar no carro, fui abordado por mais duas ou três pessoas oferecendo produtos ou pedindo dinheiro.
Bissau tem um quê de Luanda.
Sujeira nas ruas.
Esgoto.
Muita gente a pé.
Apesar do trânsito lento em alguns momentos, não se compara a Luanda.
Fluimos pelos lugares. Devagar, mas seguimos.
Candongas também há.
Aqui são chamadas de Toca-Toca.
O transporte público é um problema na África em geral.
Mesmo na África do Sul, em Botsuana e na Namíbia, alguns dos países mais desenvolvidos do continente.
As lotações vão estufadas de gente.
Algumas informações soltas que recolhi aqui e ali sobre Guiné-Bissau.
É um dos cinco países mais pobres do mundo. Mas é rico em peixe, madeira, fosfato, bauxita, argila, granito, calcário e petróleo (ainda inexplorado).
Sofre com deflorestamento acelerado, erosão do solo e pesca descontrolada. Dizem que os chineses têm feito pesca industrial no mar territorial da Guiné em níveis assustadores. Pesca em grande escala para alimentar todos os chineses do mundo. Contam-me que o novo prédio da Assembléia Nacional, uma construção que se destaca e destoa do estilo colonial de Bissau, teria sido construída pelos chineses em troca do direito de pesca por muitas gerações. A base da alimentação das pessoas é peixe, pescado de maneira artesanal.
Guiné-Bissau tem cerca de 1,5 milhão de habitantes. Em Bissau vivem 438 mil. 70% da população vive na zona rural. Os guineenses são divididos nos seguintes grupos étnicos: balanta (30%), fula (20%), manjaca (14%), mandinga (13%), papel (7%). Metade da população é muçulmana. 50% seguem crenças locais, como o animismo, que acredita num espírito superior, o iran, que vive na copa das árvores. Os cristãos são 10%. É curioso para um país de colonização portuguesa. O islamismo foi imposto por um dos reis ou líderes que controlou parte do país há alguns séculos.
No ranking da corrupção da Transparência Internacional, Guiné-Bissau aparece na posição 158 numa lista de 180 países. É o sexto mais corrupto da África.
Há cajueiros por todo o país.
Guiné-Bissau é o quinto maior produtor de castanha de caju do mundo. O produto representa 90% das exportações do país. Foram 110 mil toneladas vendidas no ano passado, que renderam US$ 81,4 milhões ao país. A produção é vendida basicamente para a Índia (75%) e Nigéria (20%). Na Índia, a castanha é processada e vendida muito mais caro para a Europa e Estados Unidos. Um dia alguém terá a idéia de permitir que os guineenses processem eles mesmos a castanha e vendam mais caro para o resto do mundo.
A distribuição de renda em Guiné-Bissau é uma das piores do mundo.
A ajuda internacional dada pelo FMI e pelo Banco Mundial representam mais de 80% do orçamento do país, que tem um PIB de US$ 479 milhões.
Guiné-Bissau é apontada por várias entidades internacionais como fonte de crianças que são levadas para outros países para prostituição, mendicância e trabalhos forçados na agricultura. O país tem sido punido por não conseguir implementar medidas capazes de diminuir essa atividade criminosa.
Nos últimos anos, Guiné-Bissau também tem se consolidado como uma das principais rotas para o tráfico da cocaína trazida da América do Sul para a Europa.
Com um arquipélago composto por 88 ilhas, Guiné-Bissau é esconderijo para os traficantes, que usam o país para lavar dinheiro. O país já é apontado como um verdadeiro narco-estado.
Ao longo dos dias vou contando mais coisas.
Mas antes é preciso registrar algo que poucas vezes encontrei nas andanças por aí.
Guiné-Bissau não é só pobreza.
Os guineenses são de uma simpatia enorme.
Puxam conversa na rua.
Respondem aos acenos de mão quando passamos por eles dentro do carro.
Em geral somos confundidos com portugueses.
Mas quando dizemos que somos brasileiros, abrem um sorriso ainda maior.
Um deles me disse hoje cedo, no porto de Pindjiguiti:
GUINEENSE – Ah, brasileiro. Então é aliado. Também foi colônia.
Gostam de um aperto de mão, que logo avança para uma conversa sobre a vida, sobre o que estamos fazendo.
E os outros, quando vêem que há um guineense conversando com um branco, logo se juntam para escutar e fazer perguntas.
Dizem que têm uma vontade enorme de conhecer o Brasil.
Um Brasil que vêem pela tela da televisão.
Ao contrário de outros países africanos que mergulham na cultura brasileira pela Globo, aqui em Bissau só passa a Record.
E os guineenses vêem de tudo. Programas de variedades, os religosos, de música e, claro, as novelas.
A mulherada reserva 50 francos todo dia para assistir, às 19h30, a mais um capítulo da novela da vez nos salões de televisão.
Uma quantidade enorme de pessoas usa camisas da seleção brasileira.
Nos dias de jogo do Brasil, os salões que vendem ingresso para se assistir ao jogo pela televisão enchem. Segundo me falou o funcionário de um desses lugares, não importa o horário do jogo. Duas da manhã? Lá estão os guineenses torcendo pelo Brasil. A seleção de Portugal também tem muitos torcedores. E o campeonato que acompanham é o de Portugal. Sabem os nomes dos times, dos jogadores.
Outra coisa que chama a atenção aqui é o calor.
Achei que Gana fosse quente.
Depois, pensei que Cabo Verde fosse quente.
Até chegar a Guiné-Bissau.
Aqui em Bissau, o calor e a umidade se unem de maneira quase letal.
Assim como se usa um facão para abrir uma picada na selva, quase precisamos de um facão para cortar o ar e avançar em direção a uma sombra.
Em direção a qualquer sombra.
Num lugar quente assim, a mente funciona de maneira diferente.
Depois de lançar um rápido olhar sobre o ambiente, o cérebro passa a identificar pontos de sombra e imediatamente começa a enviar a enviar sinais elétricos para que nossas pernas nos levem a um ponto protegido do sol.
Suamos todos, brasileiros e guineenses.
As fotos a seguir foram feitas hoje.
A maior parte foi no porto de Pindjiguiti.
Os pescadores que chegaram com a maré cheia no início da manhã com os barcos cheios de peixe.
Agora, esperam até o meio da tarde, quando a maré enche, para voltar ao mar.

Um zoom no visual decadente dos prédios na rua em frente ao porto.

Pescadores, peixeiras e compradores no cais do porto.

Um olhar qualquer em direção ao branco.

A sequência a seguir foi feita quando eu caminhava da ponta do cais até o carro.
Coloquei a câmera na altura da cintura e fui clicando.
Não queria chamar a atenção.
Aqui, muita gente não gosta de ser filmado nem fotografada.
Uns fazem sinal de dinheiro.
Mas em geral deixam fazer a foto depois que nos apresentamos e pedimos autorização.
Só que, na pressa, fiz mesmo uma série completamente roubada.
Sem foco, sem rumo.









Esta abaixo já foi feita em Quinhamel, a 40 minutos de carro de Bissau.
Um grande mangue.
As pessoas vão pegar carangueijo para vender na maré baixa.