segunda-feira, 30 de novembro de 2009

OS FISCAIS

Dizem que funciona assim: um fiscal quer fiscalizar alguma coisa, qualquer coisa feita por uma empresa.

Só que essa coisa fica longe.

É preciso deslocamento, passagem, diária.

O normal seria o órgão fiscalizador bancar as despesas dos servidores públicos encarregados de fiscalizar.

Mas parece que andam fazendo diferente.

Em alguns lugares, os servidores públicos chegam com a conta do deslocamento, passagens e diárias para as empresas pagarem.

Mostram mesmo o número da conta bancária para a empresa fazer o depósito.

Depois não entendem quando os países caem no ranking da corrupção.

UM RÁPIDO OLHAR SOBRE ANGOLA, MOÇAMBIQUE E ÁFRICA DO SUL

Foi escrito pela repórter Tatiana Gianini, da revista Exame.

Ela veio ao sul da África acompanhando missão de empresários brasileiros e escreveu relatos sobre os três países visitados.

Confira aqui.

domingo, 29 de novembro de 2009

A SOLUÇÃO PARA ANGOLA

Num dos retornos a Angola, na fila da imigração, converso com um sujeito.

SUJEITO - Eu tenho a solução para Angola.

EU - É mesmo? E qual é?

SUJEITO - Agricultura. É só tirar todo mundo de Luanda e levar para o campo. A solução para Angola é a agricultura.

EU - E as minas terrestres? Boa parte do país está minado.

SUJEITO (apontando para um cartaz de máquinas agrícolas pregado na parede) - Tratores. É só passar esses tratores em cima e pronto.

EU - Mas ninguém sabe onde as minas estão exatamente. E o governo já tentou passar essas máquinas. Liberaram as áreas achando que estavam desminadas e alguém acabava pisando numa mina.

SUJEITO (apontando de novo para o cartaz com os tratores) - Bobagem. Olha só para essas máquinas. É só você fazer uma demarcação de cinco quilômetros quadrados. Passa a máquina, limpa e depois vai para a outra área. Pronto. Está resolvido.

Fico imaginando como é que essas idéias tão brilhantes ainda não foram aproveitadas.

Depois é só tirar seis milhões de pessoas de Luanda e levar para o campo.

Depois é só construir casas para receber as pessoas.

Infra-estrutura.

Dar um salário até que todos aprendam a plantar, a colher.

Depois é só escoar a produção.

Talvez seja melhor devolver esse sujeito para o lugar de onde ele veio e pedir para ele começar tudo de novo.

Só que, desta vez, do começo.

Talvez seja melhor começar ensinando o povo a ler e a escrever.

sábado, 28 de novembro de 2009

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

MAKA

Texto interessante publicado no sítio Maka:

A promiscuidade do presidente da República

Em Agosto passado, enderecei uma carta ao Presidente da República cujo conteúdo denunciava graves actos de ilegalidade cometidos pelo Procurador-Geral da República, ao acumular esta função com a de sócio-gerente de algumas empresas privadas.[1]

Vários cidadãos me têm perguntado sobre o silêncio do Chefe de Estado e do Governo sobre as referidas denúncias. Tenho respondido que, da parte do Presidente da República, não se pode nem se deve esperar qualquer reacção positiva contra a corrupção e pelo respeito às leis em vigor. Tenho argumentado que José Eduardo dos Santos personifica a promiscuidade por si próprio denunciada como o pior mal do seu governo.[2] Também tenho afirmado que o desrespeito pelas leis estabelecidas é uma constante no quotidiano de Sua Excelência.

Face a essas interrogações, apresento, numa breve abordagem investigativa, as práticas da Fundação Eduardo dos Santos (FESA) como caso de estudo sobre o comportamento do Presidente da República em relação aos órgãos de soberania, à legislação em vigor e à corrupção."

Para ler a íntegra do texto, clique aqui.

TUNUKA

NOVA ÁFRICA NA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO

A TV Brasil exibe hoje, às 22h, o programa Nova África, sobre a República Democrática do Congo.

CHOVE EM LUANDA

Acabou de começar.

Acho que é a terceira vez que vejo chuva aqui desde que cheguei.

DEPOIS DO PAPA EM ANGOLA, BÍBLIAS E COMBATE À CORRUPÇÃO

Depois da visita do papa Bento XVI a Angola, em março, o governo angolano passou a fazer manifestações frequentes de que o país é católico.

O próprio presidente José Eduardo dos Santos manifestou preocupação com o crescimento de outras igrejas em Angola.

Criou uma comissão vinculada à presidência para estudar o assunto.

Hoje, a agência de notícias do governo angolano, a Angop, publica texto sobre a intenção do Conselho de Igrejas Cristãs em Angola (CICA) em distribuir 3.000 bíblias em português durante a realização do Campeonato Africano de Nações (CAN) em janeiro.

O objetivo, segundo o CICA, é mostrar aos visitantes que Angola "é um país que se identifica pelo cristianismo".

Para ler o texto no original, clique aqui.

Durante a visita a Angola, o papa Bento XVI também criticou a corrupção.

Nos últimos dias, observa-se grande preocupação do governo angolano em investigar casos de corrupção e desvio de recursos públicos.

O caso mais recente é o do suposto desvio de dinheiro do Ministério das Finanças e do Banco Nacional de Angola.

Segundo relata a imprensa local, "operações falsificadas" teriam permitido a transferência indevida de recursos do tesouro angolano para o exterior.

Há insinuações sobre o envolvimento de várias autoridades no episódio.

Em recente encontro do MPLA, o presidente José Eduardo dos Santos criticou o baixo empenho do partido do governo em combater a corrupção.

Dias depois, surge o escândalo das tais operações falsificadas.

A Procuradoria-Geral da República de Angola começou a investigar o caso.

Selecionei duas notícias publicadas no sítio AngoNotícias.

Como sempre, vale a pena ler os comentários ao final das matérias.

Interessantíssimos.

Para ver os detalhes, clique aqui e aqui.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

MISSÃO EMPRESARIAL EM ANGOLA

video

Reportagem da TV Brasil, exibida no dia 9 de novembro, sobre missão empresarial brasileira ao sul da África.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

SOBRE O QUE SERIA UM BOM SALÁRIO EM LUANDA

Bom, o assunto parece mesmo despertar o interesse.

E como o meu amigo R. comentou no post anterior sobre o tema, tampouco parece haver resposta certa.

Luanda tem sido escolhida ano após ano a capital mais cara do mundo.

Na frente de Tóquio, Genebra, Nova York, Londres, Paris e aquelas capitais nórdicas onde todos os problemas da humanidade parecem ter sido resolvidos há uns dois séculos.

Vamos aos fatos.

Entre 1975 e 2002, o país estava mobilizado para a guerra civil.

Não se investiu em infra-estruturas, escolas etc. porque a prioridade era outra.

Sem indústrias, o país não produz nada.

Tudo é importado.

Depois da guerra, as multinacionais (as petroleiras e empreiteiras, especificamente) começaram a desembarcar em peso em Angola.

Além dos diretores, presidentes e consultores, também precisaram trazer profissionais de níveis intermediários para realizar o serviço, diante da carência de mão-de-obra qualificada em Angola.

Esse pessoal passou a disputar a pouca oferta de tudo o que havia em Angola: casas, apartamentos, comida, tudo.

Imaginem que, entre 1975 e 2002, não se ergueu um novo prédio residencial em Luanda (pelo menos não na quantidade necessária).

Praticamente não se fez obras de saneamento básico, infra-estrutura.

Nada.

O esforço era para a guerra.

Desde 2002, o número de estrangeiros que chega ao país só aumenta, aumentando também a pressão inflacionária.

Além disso, começa a surgir uma classe média angolana com poder de compra para consumir bens, produtos e serviços de qualidade.

Isso explica os altos preços.

Uma casa de dois ou três quartos em condições razoáveis de habitabilidade em Luanda, em bairros como Maianga, Miramar, Maculusso, Vila Alice, Ingombotas (posso estar confundindo bairros com regiões. Peço desculpas) não sai por menos de US$ 10 mil mensais.

Arriscaria dizer que há uma grande probabilidade de não sair por menos de US$ 12 mil, US$ 15 mil.

Alguém perguntou quanto custaria comprar uma casa.

Depende, mas acho que só empresas estão comprando casa aqui por absoluta necessidade de hospedar os funcionários.

Só milionários compram casa em Luanda.

Não vale a pena.

Por que tão caro?

Porque não há oferta.

Somente agora começam a ser feitos lançamentos de imóveis na cidade.

Há prédios residenciais e comerciais sendo inaugurados por toda parte, mas ainda vai levar tempo até os preços caírem.

Quanto tempo?

Não sei.

Já ouvi falar em dois, três, quatro, cinco anos.

Ninguém sabe.

Qual seria o salário ideal para viver em Luanda?

Depende de uma série de fatores que várias pessoas já comentaram.

Se o seu contrato prevê que o empregador vai pagar o aluguel, é importante você saber onde fica a casa.

Qual bairro?

A rua é calçada?

Em Luanda, várias ruas em regiões centrais estão em péssimo estado.

Além dos buracos (muitas não têm asfalto), há problemas de esgoto, bueiros sem tampa etc.

A casa precisa ter um gerador e um tanque reserva para armazenar água.

Os cortes de energia são frequentes em Luanda.

Às vezes passamos três, quatro semanas sem falta de luz.

E depois vem uma semana inteira com cortes de seis, sete horas diárias.

Sem energia elétrica, não há água.

E há bairros que ficam às vezes mais de uma semana sem receber água.

Lembre-se que os aluguéis aqui são pagos com um ano de antecedência.

Portanto, se o seu contrato de trabalho prevê que você vai pagar o aluguel e você conseguiu uma casa de US$ 10 mil, lembre-se que terá de desembolsar, de cara, US$ 120mil.

Se você tem filhos, precisa se preocupar com as escolas.

Estou por fora dos preços, mas já escutei que as escolas internacionais cobram entre US$ 3 mil e US$ 4 mil por mês (talvez mais). Também com um ano adiantado.

Aqui também você vai precisar de um carro um pouco maior.

Não precisa ser uma land rover, mas um RAV-4 da Toyota, que é o carro mais popular em Luanda.

Prepare mais uns US$ 20 mil a US$ 25 mil para comprar um usado em condições.

O nosso carro é um RAV-4 ano 1997.

Pagamos US$ 18 mil há um ano e meio.

E qualquer coisa que você precise fazer no carro é uma fortuna.

Qualquer coisa.

Vou traduzir: aqui, qualquer coisa começa em US$ 500.

A cidade de Luanda não é muito grande.

Arriscaria dizer que seria mais ou menos do tamanho do Plano Piloto, para quem conhece Brasília.

Mas é o caos urbano.

O número de candongas (as vans) diminuiu bastante, mas ainda fazem bastante confusão pela cidade.

O problema da falta de energia impede que os sinais de trânsito funcionem.

Com isso, é um salve-se quem puder nos cruzamentos.

Como as pessoas aqui tendem a comprar carros enormes ( 4x4) e as ruas são estreitas, boa parte de mão-dupla, o trânsito fica ainda mais complicado.

Não se acha lugar para estacionar com facilidade.

Se o seu contrato não tiver um motorista, vale a pena contratar um.

Em alguns lugares é simplesmente impossível ir sozinho.

Não há onde deixar o carro e não dá para resolver tudo a pé.

O salário dos motoristas varia bastante.

Mas é aquela velha história: você recebe aquilo que você paga.

Os salários variam entrte US$ 200 e US$ 500.

É muito?

É pouco?

Não sei.

Tudo bem que os estrangeiros vivem num universo paralelo.

Os nossos preços não são os preços dos locais.

Em geral, pois os angolanos são muito afetados por toda a pressão inflacionária no país.

A alta dependência do petróleo e a falta de diversificação da economia não criam empregos.

Boa parte da população sobrevive vendendo coisas nas ruas.

Portanto, é impossível comparar esse tipo de coisa.

O estrangeiro que vem para cá vive na bolha do estrangeiro, que é mais cara, pois ele tenta reproduzir aqui o mesmo estilo de vida que levava em seu país de origem.

Só que os produtos e serviços que ele consumia lá não existem aqui e, quando existem, são mais caros.

Para os empregados domésticos, é o mesmo raciocínio.

Salários variam de US$ 200 a US$ 500.

Eu, particularmente, acho difícil você conseguir contratar alguém por US$ 200 mensais.

O ideal, como em qualquer lugar do mundo, é contratar alguém indicado.

Serviços também são caros.

Pintores vão cobrar US$ 200 para pintar uma parede.

Eletricistas vão cobrar US$ 100 para puxar uns fios e consertar um curto-circuito.

Encanadores vão cobrar US$ 100 para serviços de uma hora.

É preciso ter uma boa rede de contatos e contratar quem sabe fazer.

A falta de qualificação é grande e, como já aconteceu comigo várias vezes, é preciso contratar outra pessoa para refazer o trabalho que alguém acabou de fazer.

Supermercado?

Prepare-se para gastar uns US$ 300 num carrinho com produtos que no Brasil sairiam em torno de R$ 200.

Há alguns bons restaurantes em Luanda.

Depois de um tempo aqui comecei a me acostumar com os preços e a perder um pouco a noção entre o caro e o barato.

Sei lá: um jantar simples sem vinho sai por algo entre US$ 40 e US$ 60 por pessoa.

Num lugar que, em Brasília, onde eu morava antes de vir para cá, sairia por R$ 40.

Está fazendo as contas?

Vamos lá: US$ 10 mil de aluguel (se você for um cara de sorte) + US$ 400 de motorista (se você for um cara de sorte) + US$ 400 de empregada doméstica (se você for um cara de sorte) = US$ 10.800.

Seu mês começa em US $ 10.800.

Se você for um cara de sorte.

Se não trouxer filhos.

Se conseguir um carro que não dê problemas a toda hora.

Se alugar uma casa que não tenha vazamentos nem problemas elétricos.

Se não tiver que contratar um segurança para ficar na sua porta.

Faltou dizer aqui de coisas importantes que você precisa negociar e alguém mencionou num dos comentários.

As folgas.

Em geral, os estrangeiros das multinacionais trabalham três ou quatro meses aqui e têm direito a duas semanas de folga no seu país de origem.

Há gente que trabalha num outro esquema: 28 dias direto, sem fim de semana nem feriado, e outros 28 dias de folga no seu país de origem.

Quem fica três ou quatro meses e tem direito a folga também tem direito a passagem para seu país de origem.

O mesmo para os que fazem 28 por 28.

Essa é a média.

Mas há dezenas de outros tipos de contrato.

Gente que negocia duas passagens por ano para o seu país de origem etc.

Aí é a negociação caso a caso.

O importante é você não se iludir nem se deslumbrar quando te acenarem com um salário que no Brasil seria espetacular.

Um salário é apenas um número sem valor se você não conhece a realidade do lugar para onde vai.

Tem que colocar tudo na ponta do lápis.

Não embarque em aventuras.

E, se puder, venha conhecer Luanda (ou o lugar onde vai trabalhar e morar) antes de decidir.

Sei de gente que pede para sair no primeiro mês.

A realidade aqui é muito diferente da brasileira.

Não interprete nada a partir da sua perspectiva.

Você precisa mudar a forma de raciocinar.

As regras são outras.

Os códigos são outros.

Mas também é uma grande experiência.

Assim como aí no Brasil você é obrigado a conviver com brasileiros muito chatos e malas, aqui você também vai conhecer muitos angolanos chatos e malas.

Mas também vai conhecer angolanos muito legais que vão mudar o seu jeito de encarar a vida.

Pense nisso e não acredite em nada do que escrevi.

Venha ver como é.

A AIDS NA ÁFRICA

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Reportagem da TV Brasil sobre a situação da Aids, segundo o relatório da Organização Mundial de Saúde.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

QUANTO É UM BOM SALÁRIO EM LUANDA?

Recebi mensagem de um leitor dizendo que foi convidado para trabalhar em Luanda.

Ele quer saber qual seria um bom salário para vir para cá.

Caro anônimo, prometo responder em breve.

Hoje será impossível.

Mas já lhe adianto: peça muito dinheiro.

Tudo dependerá dos benefícios que te oferecerem.

Terá carro e motorista?

Quem vai pagar o aluguel?

Você ou a empresa? Vai dividir com alguém?

Vai morar onde?

Vem com filhos em idade escolar?

Cuidado para não entrar numa fria.

Não sei se já esteve aqui, mas antes de aceitar sugiro que você proponha ao seu empregador uma visita a Angola.

Passe uma ou duas semanas aqui para ver o que acha.

Depois decida.

Em breve comentarei.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

UMA PARTIDA DE FUTEBOL EM CABO VERDE

A foto acima foi tirada em algum lugar entre Tarrafal e a Cidade da Praia, em Cabo Verde.

Paramos para fazer umas imagens das montanhas e do mar.

Ao olhar para baixo, da beira do barranco em que estávamos, vi a partida de futebol que se desenrolava lá embaixo.

domingo, 22 de novembro de 2009

CHAMANCULO

Reportagem da TV Brasil sobre a construção do primeiro banheiro coletivo em Chamanculo, bairro popular na periferia de Maputo, capital de Moçambique.

PÉ NA ÁFRICA, O LIVRO

Para quem se interessa por África, uma ótima leitura é o recém-lançado livro Pé na África, Uma Aventura do Sul ao Norte do Continente, do jornalista Fábio Zanini, da Folha de S.Paulo.

O Zanini também é o autor do blog Pé na África, relacionado aqui do lado direito do diário, na relação de sítios que valem a pena.

TRAILER DO FILME LULA, O FILHO DO BRASIL

sábado, 21 de novembro de 2009

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O RUI MINGAS NÃO ESTACIONA NA FRENTE DA GARAGEM DOS OUTROS

Acabei de abrir o portão da garagem para tirar o carro para um compromisso agora à noite.

Adivinhem!

Sim.

Um 4x4 enorme estacionado na porta da garagem.

Fiz a ronda tradicional nos vizinhos.

O carro é de ninguém.

O vizinho ao lado veio me dizer que o dono do carro seria de alguém que está na casa do Rui Mingas.

Eu nem sabia que era vizinho do Rui Mingas.

Ele se ofereceu para ir lá comigo.

Toco o interfone.

Uma mulher atende.

EU – Sou o vizinho. Preciso sair com o meu carro e alguém estacionou na porta da minha garagem. Me disseram que o dono do carro estaria aqui.

VOZ DO OUTRO LADO – Acho impossível, mas vou ver.

Um minuto depois sai o próprio Rui Mingas.

EU – Sou o vizinho. Estacionaram na minha garagem e me disseram que o dono estaria aqui.

RUI MINGAS – Não. O governador do Huambo estava aqui. Parou aqui na frente mas já foi embora. Eu não sou adepto dessa prática angolana. Inclusive aqui (apontando para a garagem com espaço para cinco carros da casa dele) em casa fiz essa garagem grande exatamente para que as visitas pudessem parar e não incomodassem os vizinhos.

EU – OK. Desculpe o incômodo. É que me haviam dito que o dono do carro estaria aqui.

Agora estou esperando a carona de um amigo para ir ao compromisso.

P.S. Antes de eu publicar este post, meu vizinho bateu aqui no portão. Acharam a dona do carro. Ela estava numa casa no fim da rua e já veio tirar o carro.

A VIOLÊNCIA NA ÁFRICA DO SUL




Reportagem da TV Record sobre criminalidade na África do Sul.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

EU, O PRECONCEITUOSO. DE NOVO

Recebi há pouco o comentário de um brasileiro no post sobre as minas terrestres em Angola.

Transcrevo abaixo para que cada um tire suas conclusões.

E faço minhas observações na sequência.


COMENTÁRIO DO Rafael Ferreira,

“Cara, eu não lhe conheço mas mesmo sem lhe conhecer posso dizer que você aparenta ser uma pessoa um tanto chata e peconceituosa.

Sou brasileiro, me interesso bastante pela África e começei a seguir o teu blog a partir de outros bastante interessantes que falam deste continente.

Em todos aqueles ví críticas quando necessário, ví elogios quando cabia mas acima de tudo não ví nenhum tipo de generalização boba e infantil como as que normalmente você faz.

Você realmente não percebe que tais comentários são mais do que naturais para uma população com um passado bastante recente com tensões com outros países, principalmente a colonia?

Certamente o nível educacional de Angola não é tão "elevado" e isto não tornaria tais comentários mais visíveis?

Tenho certeza absoluta que comentários tão bobos podem ser encontrados nos EUA, na Inglaterra ou em qualquer outro país desenvolvido, mas com certeza em menor escala.

Quando começei a seguir seus posts achei que tantas críticas seriam passageiras, mas elas não acabam nunca ... se eu fosse angolano estaria realmente chateado com você.

Por fim, se ai é tão ruim volta pro Brasil rapaz!

Tenho certeza que você é competente o suficiente para se estabelecer aqui e tenho mais certeza ainda que haverá alguém que, apesar das dificuldades e problemas, se encantará por este país.

Provavelmente eu também me tornei chato e preconceituoso ao te comentar mas eu tinha que falar isto. Admiro todos os blogueiros que sigo mas infelizmente isso não ocorreu contigo ...”


Agora, a minha resposta:

Caro Rafael,

Obrigado pelos comentários.

Faltou você dizer se já esteve em Angola para eu avaliar melhor o que você escreveu.

É muito fácil se encantar ou não por um lugar apenas pela leitura do que os outros escrevem.

Tampouco sei quais blogs sobre Angola você anda lendo.

Mas a maioria dos blogs que relatam maravilhas de Angola são escritos por pessoas que não vivem mais aqui (e que quando aqui estavam reclamavam muito).

Muitos, de fato, gostaram bastante de Luanda e têm vontade de voltar.

Mas são pessoas que viviam nas chamadas "bolhas" criadas pelas empresas.

Tinham carro, motorista, não precisavam encontrar um encanador nem eletricista.

Enfim, não viviam na Angola real.

Os blogs dos angolanos são ainda mais críticos do que este diário.

Pegam pesado em relação à corrupção no país.

Talvez seja interessante você dar uma olhada neles.

Vários estão listados aí na parte direita do diário, na relação de sítios que valem a pena.

Discordo da sua afirmação de que eu faça generalizações em relação a Angola.

Trabalho com muitos angolanos.

Torço e dou minha contribuição para que eles melhorem, mas não vou abrir mão do direito de reclamar quando vejo coisas erradas.

Gostaria que você citasse exemplos de "generalizações bobas e infantis".

Conheço bem os problemas de Angola.

Conheço a história de Angola.

Pessoas que trabalham comigo ficaram aleijadas e perderam familiares na guerra.

Sei das tensões com Portugal, do ódio aos estrangeiros.

Sei de tudo isso.

E não apenas de ler nos livros ou nos jornais.

Eu vivo a realidade de Angola.

Mas como mencionei antes, também tento ajudar.

Na minha área, eu poderia contratar uma empresa estrangeira para realizar alguns serviços.

Mas quando é possível, dou preferência para um trabalhador angolano.

Em vez de dar dinheiro para uma multinacional que vai remeter os ganhos para o exterior, prefiro fazer uma transferência direta de renda para o angolano que vive e consome aqui.

Minhas críticas não serão passageiras.

Existirão enquanto eu viver aqui e enquanto as situações que merecem ser criticadas continuarem a existir.

Não sei quais críticas você considera bobas e infantis.

Seria sobre a vergonha que é a corrupção no aeroporto, a vergonha dos achaques feitos pela polícia?

Ou sobre o hábito de estacionarem na porta da garagem dos outros?

É que a guerra...ah, a guerra!

A guerra é sempre um bom argumento.

Protege os medíocres, os corruptos e pune, mais uma vez, os que tentam avançar.

Esse seu comentário de que tem "certeza que sou competente o suficiente para me estabelecer" no Brasil também carece de qualquer tipo de fundamento.

É o comentário que os xenófobos (angolanos ou não) mais gostam de fazer.

Eu não vim para Angola por causa da minha falta de competência.

Foi exatamente o contrário.

Assim como todos os profissionais estrangeiros que conheço aqui.

Acho pouco provável que uma empresa angolana ou estrangeira esteja disposta a assumir os gastos altíssimos de trazer um profissional incompetente para cá.

O país precisa crescer.

Precisa de quadros, de quadros competentes.

Acusar os estrangeiros que aqui estão de incompetentes é o esporte preferido dos incompetentes e xenófobos locais.

Quando não gostam de algo, dizem que os estrangeiros que estão aqui são os incompetentes, que não conseguiram emprego nos seus países de origem e por isso vieram para cá.

É de uma primariedade lamentável achar isso.

É supor que Angola está trazendo para cá os trabalhadores incompetentes dos outros países.

É supor que os trabalhadores incompetentes, que não conseguiram se colocar nos seus mercados de origem, são melhores do que os angolanos.

Isso sim é papo de xenófobo e preconceituoso.

Isso sim é zombar da inteligência dos angolanos.

É um direito seu admirar ou deixar de admirar o blog que quiser.

Mais uma vez, obrigado pela presença.

Apareça sempre que quiser.

PETROBRAS E SONANGOL DESCOBREM PETRÓLEO EM ANGOLA

Reportagem da TV Brasil sobre novo poço de petróleo descoberto em Angola pelo consórcio Sonangol- Petrobras.

MINAS TERRESTRES MATAM TRÊS CRIANÇAS E FEREM OUTRAS DUAS EM ANGOLA

Três crianças morreram e outras duas ficaram feridas na semana passada em Djakala, na província da Lunda Norte.

Segundo relatos da imprensa local, as crianças estavam brincando com a mina, que explodiu ao ser atirada contra uma árvore.

A notícia foi divulgada pela Rádio Nacional de Angola e reproduzida em alguns sítios, como o Angonotícias.

O curioso, sempre, é ler os comentários dos angolanos sobre o assunto.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

CUMPLICIDADE

Recebi ontem um e-mail do meu amigo Bernardino Furtado.

Ele criou um blog: “Cumplicidade – 20 anos de reportagem, 20 fotógrafos”.

Conheci o Bernardino em 1994, na sucursal de São Paulo de O Globo.

Desde então,também fomos colegas na Revista Época e no Correio Braziliense.

O Bernardino é um daqueles amigos que, mesmo depois de ficarmos dois, três anos sem se falar, quando nos encontramos é como se tivéssemos nos encontrado na véspera.

Acho que isso é uma coisa boa.

A partir de hoje, Cumplicidade – 20 anos de reportagem, 20 fotógrafos entra na relação de sítios que valem a pena.

EXPERIÊNCIAS ANGOLANAS

Deixei o carro do lado de fora na noite passada.

Quando abri o portão hoje cedo, encontrei o Cláudio e o Paulo a examinar o carro.

Durante a noite, arrebentaram a fechadura da porta de trás do carro.

Entraram e levaram os comandos que travam as portas e controlam os vidros.

A fechadura da porta de trás, que leva o nome de canhão, aquele miolo onde se enfia a chave, aparentemente não é vendida sozinha.

É preciso comprar o jogo inteiro.

Algo em torno de US$ 600 ou US$ 700.

E os comandos que acionam os vidros e as travas das portas saem por uns US$ 450.

Sem falar na mão-de-obra.

Por um momento pensei que conseguiria sair de Angola sem essa experiência.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

COISAS QUE ACONTECEM NAS RUAS DE LUANDA

Voltávamos de uma filmagem no fim da tarde.

Paramos próximo ao prédio da Sonangol, na região central de Luanda, para que Pytú fizesse algumas imagens.

Ele atravessou a rua, montou o tripé, apontou a câmera para o imponente prédio da Sonangol e começou a filmar.

Alguns metros adiante, um jovem começa a reclamar que está sendo filmado.

Um jovem que poderia ter entre 18 e 22 anos.

Não sei se o classificaria como mendigo.

Mais parecia um desses tipos que passam o dia na rua pedindo dinheiro, importunando as pessoas, cheirando cola e arranjando confusão.

Enquanto Pytú filmava o prédio da Sonangol, ele continuava a reclamar.

Eu acompanhava a filmagem do lado de cá da rua, próximo ao carro.

O tipo passa por mim reclamando e diz que estou brincando com a morte.

Atravessa a rua e reclama com Pytú.

Em seguida aparecem outros dois malandros e se juntam a ele.

Reclamam que estão sendo filmados.

Pytú vem em direção ao carro para guardar o equipamento e sairmos.

Somos cercados pelos três malandros.

Um deles usa muleta. Uma das pernas está amputada na altura do joelho.

Enquanto Pytú guarda a câmera, o primeiro dos malandros, numa postura agressiva, exige ver as imagens.

Ficamos todos exaltados.

Grito daqui, eles gritam de lá.

O que usa muleta coloca a mão dentro da calça como se fosse sacar uma arma ou uma faca e vem em minha direção.

Eu me afasto.

Ele tenta se aproximar.

Ameaço dar-lhe um chute.

O motorista de uma van estacionada atrás do nosso carro interfere e pede que nos deixem.

De nada adianta.

A discussão esquenta.

Gritos de um lado e de outro.

Entramos no carro, que leva chutes e socos dos três sujeitos.

E assim termina mais um dia de trabalho nesse barril de pólvora chamado Luanda.

ENTRE A MULTA E A GASOSA

Uma reportagem publicada na última edição do jornal O País deu voz a alguns policiais angolanos.

Falaram na condição de não serem identificados.

Reclamaram dos baixos salários.

Dizem que alguns recebem o mesmo, e até menos, que recebiam durante o treinamento.

Recebem com atraso.

Reclamam da falta de reconhecimento dos superiores.

As frases dos policiais são interessantes.

Selecionei esta:

“No meu ponto de vista, essa redução (no salário) é um convite para extorquirmos dinheiro aos cidadãos, porque os 28 mil kwanzas (US$ 311) que receberei, ao contrário dos 47 mil kwanzas, não chegará para pagar a renda de casa, garantir que haja comida para minha família durante todo o mês e fazer uma reserva para apanhar todos os dias táxi para ir trabalhar.”

E mais esta:

“É preciso termos em atenção esse pormenor porque os 28 mil kwanzas que passei a ganhar não duram mais de 10 dias e não terei outra opção para evitar que os meus dois filhos fiquem os outros 20 dias sem comer.”

Em outro trecho, a reportagem informa: “no entender da fonte de O País, será muito difícil para eles ter que escolher entre passar a multa a um automobilista que infringiu o Código de Estrada, para depois o dinheiro ser revertido ao cofre do Estado, e receber uma ´gasosa´ para ajudar a custear as despesas de casa”.

Acho que nada mais precisa ser dito.

FALTA LUZ E É DIFÍCIL ENCONTRAR GASÓLEO

Domingo faltou energia elétrica o dia inteiro.

Ontem faltou energia durante quase toda a manhã.

Hoje não há energia desde às 9h da manhã.

Fazia tempo que os cortes de energia não eram tão frequentes em Luanda.

Quem tem gerador leva a vida.

Quem não tem, acende uma vela.

Outro problema é que, como os geradores funcionam a diesel, é preciso caçar diesel pela cidade.

Nem todos os postos de combustível vendem diesel.

E nem todos os postos de combustível que vendem diesel aceitam vender para quem leva um galão.

Os que aceitam vender para quem leva um galão cobram uma taxa adicional que começa em 50 kwanzas.

Mas para encontrar o posto que venda diesel no galão é preciso paciência, percorrer vários pontos da cidade e enfrentar uma fila básica de uma hora.

Não consegui ainda explicação razoável para o fato de alguns postos não aceitarem vender diesel, ou gasóleo, como chamam aqui, no galão.

Já me contaram uma história de que uma vez alguém foi comprar no galão, acendeu um fósforo para fumar e houve um incêndio no posto.

A partir daí, muitos donos de postos passaram a não vender gasóleo desta forma.

Enfim.

Mas tenho certeza que durante a Copa Africana de Nações, que acontecerá em janeiro, não faltará energia elétrica nos estádios.

SEM GÁS

Angola é atualmente o maior produtor de petróleo da África e o principal fornecedor da China.

Produz pouco menos de dois milhões de barris diários.

Só ultrapassou a Nigéria por causa dos conflitos naquele país, que, de tempos em tempos, causam a destruição de oleodutos e a queda na produção.

Apesar da abundância petrolífera, Angola ainda não conseguiu resolver o problema do abastecimento de gasolina.

Há poucos postos de combustível no país e as filas para abastecer são permanentes.

Uma hora é o tempo médio de espera para quem quiser encher o tanque.

O litro da gasolina é barato.

Custa 40 kwanzas, ou cerca de US$ 0,44 (dependendo de onde se faça o câmbio).

Já se comentou várias vezes em aumentar o preço do combustível, mas teme-se uma revolta nas ruas, como a que houve no ano passado em Moçambique.

Outro produto difícil de se achar nos últimos dias é o gás de cozinha.

As revendas não têm o produto e é preciso circular pelo trânsito caótica de Luanda atrás de um lugar que venda um botijão de gás.

Nos últimos dias, os depósitos estão vazios e só se compra gás no mercado paralelo.

Em determinados locais da cidade encontramos mulheres sentadas em alguns botijões à venda.

Geralmente ficam em frente a garagens ou galpões onde é possível comprar gás.

Um botijão cheio sai por 5 mil kwanzas.

Ou US$ 55.

Para um país sem renda, é um preço impraticável.

Mas a realidade econômica é tão distorcida em Angola que é praticamente impossível saber se o preço é caro ou barato.

Empregados domésticos bem pagos chegam a receber US$ 500 por mês.

Um encanador ou um eletricista pedem US$ 150 por um serviço de uma hora.

Não há referências.

De fato, parece haver algo errado num país em que um botijão de gás custa US$ 55 e um litro de gasolina custa US$ 0,44.

Tudo bem: a gasolina barata acaba por não provocar um impacto no preço dos transportes pela população.

Mas também beneficia os novos ricos angolanos que entopem as ruas com seus veículos 4x4 importados.

E quem vive na miséria não precisa de estudos econômicos para saber que algo vai muito mal por aqui.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

CHINESES VÍTIMAS DE CRIMES EM ANGOLA

Segundo reportagem da Agência France Presse e da BBC, publicadas pelo sítio Angonotícias, a comunidade chinesa em Luanda tem sido vítima de frequentes assaltos.

Trabalhadores e empresas.

Em especial nas regiões periféricas de Benfica e Viana.

De acordo com a reportagem, as autoridades policiais angolanas "desvalorizam" a situação com o argumento de que a "insegurança" ainda prevalece em Angola.

A reportagem informa que trabalhadores têm sido assaltados depois de receberem os salários.

Houve casos de criminosos que, insatisfeitos com a quantia obtida, jogaram água quente nas vítimas.

Empresas de construção civil também têm sido assaltadas. Tanto escritórios como os alojamentos dos trabalhadores.

Ainda segundo a reportagem, um trabalhador e um empresário chineses foram assassinados nas últimas semanas.

De acordo com os relatos das vítimas, os criminosos usam fuzis de assalto russos AK-47.

Os AK -47 são as armas mais comuns de se ver em Luanda.

São usadas pela polícia, por seguranças de banco e até pelos vigias de ruas, aqueles que passam o dia dormindo em cadeiras de plástico brancas em frente às residências.

São os Senhores Proteção.

Já escrevi sobre eles.

Para conhecer ou relembrar, clique aqui, aqui, aqui e aqui.

A embaixada da China em Luanda já teria emitido comunicado para que os chineses não saiam de casa sozinhos e evitem sair à noite.

É a indústria do medo em Luanda.

Ninguém sabe ao certo quantos chineses vivem em Angola.

Os números variam entre 40 mil e 100 mil.

A presença dos chineses na África tem sido cada vez maior.

Em praticamente todos os países há trabalhadores chineses e isso tem sido foco de tensão.

Os chineses são acusados de tirar o emprego dos trabalhadores nacionais, pois atuam ocupam os cargos mais baixos, sem muita qualificação, em países de baixíssima escolaridade e em que a construção civil parece ser, por enquanto, a única forma de criar empregos em grande quantidade.

Para ler a reportagem completo no sítio da Angonotícias, clique aqui.

E depois veja os comentários dos leitores.

O curioso, como poderão observar, é que qualquer discussão em Angola sempre acaba distorcida com comentários preconceituosos e descamba para temas raciais muitas vezes sem qualquer fundamento.

domingo, 15 de novembro de 2009

LUBANGO OU HARARE

Lubango, em Angola, e Harare, capital do Zimbábue, estariam entre as cidades cogitadas para hospedar a seleção brasileira de futebol no período preparatório para a Copa do Mundo da África do Sul de 2010.

É o que dizem.

sábado, 14 de novembro de 2009

GENERACIÓN Y

É o blog da cubana Yoani Sanchéz, que narra a vida em Cuba.

Yoani foi espancada por três homens no último dia 6, quando se dirigia a uma manifestação em Havana.

Além do Generación Y, Yoani é autora do livro De Cuba, com Carinho.

A partir de hoje, Generación Y entra na relação de sítios que valem a pena.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

ROUBO DE LIMÕES DÁ CADEIA EM LUANDA

A notícia com o título "Jango Veleiro diz-se roubado em limões e milhões" foi publicada originalmente no jornal angolano O País.

Conta a história do roubo de 32 limões do restaurante Jango Veleiro, na Ilha de Luanda, supostamente por um dos funcionários - que acabou preso.

Ao ler a reportagem, descobrimos que o restaurante estaria sendo vítima de roubos sucessivos dos próprios funcionários, que teriam organizado uma quadrilha.

Venderiam, inclusive, bebidas e alimentos do Jango Veleiro a outros restaurantes.

A história é surreal.

Depois de ler a reportagem abaixo, clique aqui e veja, no final do texto, os comentários incríveis que os leitores do sítio Angonotícias têm feito sobre o episódio.

Um caso de polícia começa a descambar para o racismo.

"JANGO VELEIRO DIZ-SE ROUBADO EM LIMÕES E MILHÕES

Um e-mail supostamente escrito por Artur Cândido da Silva, extrabalhador do Jango Veleiro, deixou atónitas centenas de internautas e leitores pelo facto do mesmo puder vir a ser julgado por tentar roubar 32 limões no restaurante, na madrugada de 22 de Outubro.

O funcionário, que trabalhava na instituição há dois anos, esteve detido vários dias na esquadra policial da Ilha de Luanda, já foi posto em liberdade, embora a administração do restaurante não abra mão do processo em causa. “O gerente do restaurante, o senhor André, prestou declarações nessa madrugada e diz me conhecer há um ano, mas sabe que eu trabalho há mais tempo. Também diz não haver razões para detenção, porque 32 limões seriam o equivalente a 1500 Kwanzas e que isso era um caso que poderia ser resolvido internamente”, explicou o acusado, acrescentando que “o máximo que a gerência poderia fazer era demitir-me”.

No dia 23 de Outubro, como atesta o próprio e-mail do acusado, compareceu na esquadra da Ilha, onde voltou a ser detido, acusado de furto de três quilogramas de limão, ou seja 32 limões, pelo segurança Manuel Bunga, da empresa PRODIAM, também pertença do proprietário do Jango Veleiro, o empresário Pedro Godinho.

O acusado explicou que as pessoas na esquadra ficaram comovidas, quer o oficial dia, a comandante e os agentes em serviço, porque acham que não podia ser detido por causa de 32 limões, mas nada podiam fazer porque existia uma queixa.

“Eu confesso não ter roubado 32 limões, o restaurante Jango Veleiro tem câmaras, peço por favor para verem as filmagens. Quem souber fazer contas e souber o preço de 32 limões, quanto é que isso equivale? Eu tenho família, trabalho honestamente há mais de dois anos, será que se eu precisasse de dinheiro não poderia recorrer à minha família e amigos?”, questionou-se o incriminado, no e-mail dirigido aos órgãos de comunicação social.

Inconformado com o facto de ter passado Quinta, Sexta, Sábado e Domingo no calabouço, por causa de três quilos de limões, o jovem Artur Cândido da Silva, interrogou-se ainda: “eu tenho sonho, concluir os meus estudos e continuar a trabalhar, onde é que eu posso arranjar emprego depois deste escândalo, como poderá ficar manchada a minha ficha criminal? Será que não há crimes mais complexos em Luanda para ocupar o lugar da cela que eu estou a ocupar? Será que não haverá outros crimes para ocupar o tempo da Polícia e o nosso Tribunal?”

Já posto em liberdade, o barman não teve um julgamento sumário, porque alguns argumentos da acusação esvaziaram-se.

Depois de ter sido apanhado em flagrante delito pelo segurança com os citrinos, como confirmou a O PAÍS o chefe de segurança do restaurante, identificado apenas por Kiala, ele foi dispensado para ir à casa e regressar no dia seguinte.

Apesar disso, a direcção do Jango Veleiro aguarda que a Polícia Nacional encaminhe o “Processo dos limões” para o Tribunal Provincial de Luanda.


A equipa da administração do restaurante acredita na existência de uma rede de funcionários que delapidam constantemente os cofres da empresa, razão pela qual pretendem levar o caso às instâncias judiciais, porque ladrão de milhões de dólares e de limões, são todos ladrões.


Dos limões aos milhões
Os considerados pequenos roubos, desencadeado por cozinheiros, empregados de mesa, bar, caixa, copa, grill e pivô, ameaçam a existência do próprio restaurante, que neste momento está endividado com alguns fornecedores.

Alguns empregados de mesa nem sempre entregam o dinheiro aos caixas, não fazem o registo automático das encomendas e mentem aos clientes que têm problemas para a impressão das facturas. Existem caixas que acabam por subtrair alguns valores depois da hora de trabalho.

Numa carta enviada ao chefe do departamento de investigação criminal da 1ª Divisão da Polícia Nacional, intendente Vidal Fermão, a administradora Ana Godinho referiu, no dia 8 de Junho de 2006, que tinha sido descoberto uma série de desfalques, em estavam envolvidos 30 funcionários suspeitos.

A senhora sublinhou que os danos financeiros registados, em consequência dos desfalques desenvolvidos pelos referidos suspeitos, estão avaliados em média diária de 288.

200 Kwanzas, equivalentes a 3.600 dólares norte-americanos na altura, o que totalivaza o valor mensal de 8.640.600 Kwanzas ou seja, 108.000 dólares.

A julgar pelos dados contabilísticos de há três anos, uma fonte do restaurante confidenciou a O PAÍS que pelo menos um milhão 200 mil dólares terão sido roubados em dinheiro e em mercadorias, nos chamados pequenos roubos.

“Tendo em conta a magnitude da delapidação financeira que se vem registando, acreditamos que brevemente registar-se-á a falência do restaurante e o consequente desemprego de mais de 250 pessoas que constituem o universo de trabalhadores do Jango Veleiro, conduzindo assim à agudização das dificuldades sociais e financeiras destes e seus familiares”, lê-se ainda na carta endereçada por Ana Godinho, solicitando a Polícia Nacional que efectue “diligências necessárias para a neutralização da rede e a consequente responsabilização criminal” dos seus integrantes.

A administradora realçou que após o desmantelamento de mais de cinco redes organizadas pelos funcionários com o intuito de se locupletarem dos valores monetários e bens materiais, a sua empresa apresentou os supostos ladrões à esquadra da 1ª Divisão da Polícia Nacional, na Ilha de Luanda, mas infelizmente os arguidos dos cinco grupos foram libertos.

Outras cartas foram enviadas à Polícia Nacional entre 2007 e o ano em curso, mas a PGR argumenta sempre que os valores subtraídos são módicos. E os acusados são postos em liberdade.

“Quando as pessoas menosprezam 32 limões”, conta um dos responsáveis, “não têm noção de que isso representa cerca de 500 ou 600 dólares em caipirinha, que é uma das bebidas mais solicitadas actualmente nos restaurantes e bares”.

Dani Costa "

CAMINHANDO NAS NUVENS

Em algum lugar em Cabo Verde.

UM POUCO DO QUE SE PASSA EM ANGOLA

Precisei ir ao glorioso aeroporto 4 de Fevereiro hoje cedo.

Às 6h30 da manhã já havia policiais de trânsito achacando motoristas na área em que os passageiros são deixados para o embarque.

Um deles veio na minha direção.

Mas passou direto e foi conversar com um angolano que estava a uns 10 metros atrás do meu carro.

Depois percebi que o carro do angolano estava parado na frente do meu.

O policial e o motorista se afastaram mais um pouco e começaram a conversar de costas para o local em que eu estava.

Este é o procedimento padrão dos policiais que achacam os motoristas.

Mandam o motorista parar.

E aí começa a encenação.

Pedem uma série de documentos.

Olham detalhadamente para a papelada.

Coçam a cabeça.

Então passam a pedir comprovante disso, daquilo.

Isso me lembra a primeira vez que fui parado pela polícia em Luanda.

A pequena corrupção que permeia o serviço público angolano (e também o brasileiro e o português e o norte-americano...) teve grande impulso há cerca de um ano e meio.

Ficou famosa a resposta de uma autoridade angolana numa entrevista a uma rádio local.

Indagado pelo jornalista sobre os achaques que as pessoas estavam sofrendo da polícia, a autoridade respondeu:

AUTORIDADE ANGOLANA – Os salários dos funcionários públicos são baixos. Isso que acontece nas ruas é um apenas entendimento entre o cidadão e o motorista. Não há nada de errado.

Com uma chancela oficial destas, não se precisa de mais nada.

A aproximação da Copa Africana de Nações vai expor o nível dos serviços e dos agentes públicos angolanos.

Imagino os olhinhos de policiais e funcionários corruptos brilhando com reflexos em formato de cifrão por causa da chegada de turistas endinheirados.

As reformas no glorioso aeroporto 4 de Fevereiro de fato melhoraram o ambiente.

Tanto o embarque quanto o desembarque estão mais organizados.

Mas a administração do aeroporto continua incapaz de garantir a entrega da bagagem num tempo razoável.

Pela demora (algo entre uma hora e meia e duas horas), imagino que a ação de tirar malas do avião, colocá-las num veículo e levá-las até a esteira do desembarque não seja um serviço tão simples como imagino.

Talvez exija um raro alinhamento planetário e daí a dificuldade na execução da tarefa.

Ainda se vê um ou outro picareta circulando nas áreas restritas aos passageiros que aguardam a bagagem, mas a atuação desse pessoal é bem mais discreta do que há alguns meses.

E deve-se ao fato de ainda existir o esquema de rateio das gasosas com os funcionários do aeroporto.

Do lado de fora do desembarque, ainda permanecem vários picaretas querendo levar as bagagens dos passageiros que chegam.

Estive lá no domingo passado e é algo de interessante observar a dinâmica do local.

Alguns dos picaretas passam parte do dia tentando entrar na área de desembarque para tentar tirar algum dinheiro dos viajantes.

São repelidos aos empurrões pelos funcionários do aeroporto.

Mas, no minuto seguinte, estão de novo tentando entrar na área de desembarque para sempre novamente repelidos pelos funcionários.

Trocam insultos.

Trocam olhares e risos cínicos.

Depois caem na gargalhada.

E depois vem um aperto de mão daqueles em que uma nota de mil kwanzas passa de uma mão para outra de forma sorrateira.

E, como num passe de mágica, o espertalhão que antes tinha sua entrada proibida, é praticamente escoltado pelo próprio funcionário do aeroporto para a área interna e restrita aos passageiros que desembarcam.

Os estrangeiros que vêm a Angola pela primeira vez são facilmente identificáveis.

São imediatamente denunciados pelos olhares assustados.

Suados pelo longo tempo de espera das bagagens, apresentam um semblante um tanto amedrontado ao receberem no rosto a primeira lufada quente de Luanda.

Olhos nervosos procuram seus nomes nas placas que motoristas, funcionários de multinacionais, de embaixadas e de organismos multilaterais exibem do lado de fora.

Alguns não se arriscam a ultrapassar o corrimão que separa o desembarque da malta do lado de fora.

Encostam-se na parede ao lado das malas e passam a olhar detalhadamente os angolanos e suas plaquinhas, na esperança de serem resgatados para o ambiente climatizado das guest houses.

Quem espera alguém na área do desembarque não percebe, mas está sendo observado, monitorado, rastreado o tempo todo.

No domingo, depois de quase uma hora de espera, fui abordado por um angolano.

ANGOLANO – Do you speak English?

EU – Pode falar em português.

ANGOLANO – Ah...Vi que está aqui com a sua esposa. Se quiser entrar para ver a pessoa...

EU – Não, obrigado. Já fizemos contato por telefone e a pessoa está saindo.

E o angolano, bermuda, camiseta e sandálias havaianas, nos deixa.

É um dos malandros que passam o dia na área de desembarque em busca de clientes.

Oferece um serviço que tem lá sua clientela, a dos impacientes que estimulam as pequenas corrupções ao aceitar dar dinheiro para burlar normas que, em tese, têm o objetivo de facilitar o andamento das coisas.

Caso eu tivesse aceitado a oferta, teria dado uns mil kwanzas e o sujeito das havaianas conseguiria me fazer entrar na área de desembarque, depois de deixar 200 ou 300 kwanzas na mão do funcionário que controla a entrada de pessoas no aeroporto.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

PEQUENAS CORRUPÇÕES

Como todos sabem, é proibido sair de Angola com kwanzas.

Muitos viajantes são surpreendidos com a notícia no momento do embarque no glorioso aeroporto 4 de Fevereiro.

São diversos os relatos de estrangeiros que foram aliviados pela polícia alfandegária dos kwanzas que levavam no bolso.

Desde quantias pequenas, uma nota de 10 kwanzas levada como lembrança, por exemplo, até valores mais elevados, equivalente a US$ 100, US$ 200.

É um dinheiro que fica na carteira do estrangeiro que está em Angola a trabalho e está de partida para gozar férias eu seu país de origem.

Muitos acabam mesmo perdendo o dinheiro por falta de informação.

Acham que simplesmente devem entregar o dinheiro aos funcionários do aeroporto que perguntam se o estrangeiro está levando consigo a moeda local.

De fato, é proibido tirar kwanzas de Angola.

Até hoje não consegui uma explicação plausível sobre o motivo da proibição.

A única história que explicaria o caso data do período da guerra civil.

Dizem que Jonas Savimbi e a Unita inundavam Angola com kwanzas falsos para desestabilizar a economia.

Daí a proibição.

Os kwanzas levados para fora de Angola serviriam de molde para novas falsificações.

Nunca consegui confirmar esta versão.

Talvez esteja mais para lenda urbana.

Serve para atazanar a vida dos estrangeiros.

Assim como a história de que é proibido fotografar em Angola.

Ainda hoje ouvimos relatos de pessoas achacadas por policiais e mesmo seguranças privados na rua pelo fato de tirarem fotos.

Mas isso é outra história.

O fato é que a proibição de sair de Angola com kwanzas é uma daquelas situações em que o próprio governo estimula a corrupção no país.

Quem já esteve em Angola viveu a experiência de ser perguntado diversas vezes no aeroporto se está levando kwanzas.

Em tese, o único local em que se deveria dar tal explicação é na aduana.

Mas as perguntas começam ainda no pré-check-in.

O funcionário do aeroporto que confere o passaporte antes de autorizar nossa entrada na área do check-in quer saber se estamos levando kwanzas.

O funcionário do aeroporto ou o policial que confere pela segunda vez o passaporte antes de permitir nossa entrada na área de imigração quer saber se estamos levando kwanzas.

O funcionário da segurança que opera o aparelho de raios-x quer saber se estamos levando kwanzas.

Por fim, os policiais da aduana querem saber se estamos levando kwanzas.

Em cada uma dessas etapas, os funcionários e policiais estão roubando as pessoas.

Se é proibido levar kwanzas de Angola, o estrangeiro deve ser orientado a fazer o câmbio (e o aeroporto deve ter uma casa de câmbio em funcionamento) antes do embarque.

Se não houver opção de fazer o câmbio, os policiais devem reter o dinheiro e fornecer um documento com informações sobre a quantia em kwanzas que o passageiro poderá reaver no seu retorno a Angola.

Mas nada disso é feito.

Impera a pequena corrupção estimulada pela vigência de regras ultrapassadas.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

UMA ENTREVISTA COM MIA COUTO


Mia Couto nos recebeu no escritório da empresa em que dá expediente quando não está escrevendo livros.

Além de escritor, Mia Couto é biólogo.

Tem uma empresa de projetos ambientais que funciona numa casa na região central de Maputo.

Fala mansa, Mia Couto não se altera com nenhuma pergunta.

Além deste diário, participou da entrevista o jornalista português António Cascais, radicado na Alemanha e colaborador de diversas emissoras de rádio e televisão europeias.

A entrevista foi em 29 de outubro, um dia depois das eleições.

Mia Couto ainda estava com o dedo indicador direito sujo com a tinta indelével que comprova a participação no processo eleitoral e serve para impedir que se vote duas vezes.

Apesar dos compromissos, Mia Couto abriu meia hora na agenda lotada.
Com clientes esperando na recepção, acabou falando por quase uma hora sobre política, Frelimo, democracia, os mitos em torno da África e um pouco sobre literatura.


O QUE ESSA ELEIÇÃO REPRESENTA PARA A DEMOCRACIA DE MOÇAMBIQUE?

A democracia...Acho que nos habituamos a ver a democracia em Moçambique como uma coisa que é feita com vários caminhos. O caminho desta democracia parlamentar, com essa votação por delegação política em alguém que nos representa é uma coisa relativamente recente. Moçambique viveu 33 anos de independência e metade desse período foi feito sem democracia. Foi feito com regime de partido único. Curiosamente, havia durante esse regime algumas instituições, vamos dizer assim, que funcionavam. Principalmente ao nível de poder popular, poder de base. Funcionavam com nível de envolvimento e participação que hoje já não ocorre. Não estou a fazer a defesa do regime monopartidário. Estou a dizer que, para avaliar o regime da democracia, a possibilidade de participação das pessoas naquilo que são seus assuntos de interesse não podem ser medidos apenas por este parâmetro. De qualquer maneira, acho que os moçambicanos querem este caminho, querem o caminho da democracia formal, da representação partidária. E isso ainda não foi conseguido. É um processo, e agora isso implica que o partido no poder tem que ter oposição. E essa oposição tem que ser criada, tem que haver um processo de fundamentar isso que são forças da oposição. E isso ainda está a acontecer em Moçambique.

NAS ELEIÇÕES ANTERIORES HOUVE ÍNDICE DE ABSTENÇÃO ALTÍSSIMO, ACIMA DE 70%. O QUE EXPLICARIA ISSO? UM DESENCANTO? FALAM QUE AS ELEIÇÕES ERAM REALIZADAS NO PERÍODO DAS CHUVAS E AS PESSOAS NÃO IAM VOTAR, QUE AS DECLARAÇÕES DA RENAMO DE QUE O PROCESSO ERA CORRUPTO E POR ISSO NÃO VALERIA A PENA VOTAR TAMBÉM TIVERAM UM FORTE IMPACTO NEGATIVO NA POPULAÇÃO.

Há sempre várias explicações. Algumas estão ditas por si. Um país como este não pode ter eleições no período das chuvas. Isso parece-me uma coisa do domínio do absurdo, mas este país não pode ter eleições onde elas depois não são realizadas. Depois há outras razões. Há razões... Não é um desencanto, mas as pessoas antecipadamente sabem quem vai ganhar e, portanto, não se sentem motivadas para essa disputa, para participar nessa escolha. E quando eu digo antecipadamente sabem quem vai ganhar, não estou a adotar o discurso da Renamo, que diz que as coisas já estão todas cozinhadas. Mas, de fato, a Frelimo tem um domínio absurdo sobre o que são as zonas rurais e as zonas urbanas. No princípio, logo a seguir à guerra civil, ao fim da guerra civil, a Renamo tinha ainda uma presença expressiva nas zonas rurais, aquilo que eram as autoridades tradicionais, os líderes locais, tinha uma ligação filial, de fildelidade com a Renamo. Isso foi sendo perdido e hoje a Renamo não representa nada.

O QUE ESSE DOMÍNIO TÃO FORTE DA FRELIMO REPRESENTA NA VIDA DO PAÍS? É POSITIVO, É NEGATIVO? SERÃO NECESSÁRIAS ALGUMAS GERAÇÕES PARA QUE AS PESSOAS PASSEM A ACREDITAR QUE O VOTO DELAS FAZ DIFERENÇA?

Sim. As coisas não acontecem porque historicamente não tem que acontecer de uma certa maneira. Acho que a Frelimo representou, e representa ainda hoje, a força que é capaz de criar a nação. Esta é uma nação jovem, é uma nação em projeto. Ela está sendo formada. Se o grande objetivo deste país é ter estabilidade, é ter uma unidade nacional para conseguir depois outras coisas, então provavelmente é preciso que haja um período como este que estamos atravessando para se criar os fundamentos, as fundações de uma nação nova. Essa é a razão principal pela qual as pessoas não votam tanto nos outros partidos. Evidente que também é um cenário que se repete muito em África. Aquilo que são as campanhas eleitorais contam apenas uma pequena percentagem, contam aquilo que são a criação de programas, o componente ideológico. Porque depois muito do que é feito para captação de simpatias é feito pelo fenômeno de troca de influência, pela distribuição de facilidades e cargos etc. Acontece também na América Latina, em todo o mundo. Não é uma coisa exclusiva nossa.

MOÇAMBIQUE É APONTADO COMO CASO DE SUCESSO EM TERMOS DE ESFORÇO PARA REDUÇÃO DA POBREZA. RECEBE MUITA AJUDA INTERNACIONAL. MAS JÁ SE OBSERVA UM FRACASSO OU O NÃO-SUCESSO DE VÁRIOS PROGRAMAS. MUITA GENTE DIZ QUE HÁ PROBLEMAS COM OS PROGRAMAS, MAS AS NAÇÕES DOADORAS TAMBÉM TÊM DIFICULDADE EM ADMITIR QUE FALHARAM. NÃO TERIAM A FORÇA POLÍTICA OU O DESEJO DE CORTAR PROGRAMAS IMPORTANTES QUE NA PONTA VÃO ACABAR AFETANDO A POPULAÇÃO. COMO SE SAI DESSE DILEMA?

Acho que, em grande parte, é um falso dilema. Porque o olhar sobre a África sempre foi o olhar entre aquilo que era o olhar completamente negativo e o completamente positivo. Deslumbrado e desencantado. África era vista sempre assim: de repente era um inferno, de repente era um paraíso. De repente era o regresso daquilo que é o sentimento de ligação com a natureza, de harmonia com o tempo. De repente é o olhar no sentido inverso. Mas nós também estamos a ser punidos por essa alternância de visões, que era a visão cor-de-rosa que noticiava Moçambique. Moçambique era visto como um bom aplicador de fórmulas. Essas fórmulas vinham de fora, não foram fabricadas aqui em Moçambique. E essa visão era uma visão disfarçada, que não correspondia à realidade. Mesmo quando ela era muito cor-de-rosa, muito positiva: Moçambique é o grande exemplo. Moçambique nunca foi esse grande exemplo. E o meu receio é que se caia no exemplo oposto. De repente Moçambique se converte num paradigma do mau exemplo, do incapaz. É preciso entender que esses programas, essas metas são feitos por nós sabemos quem. Banco Mundial, Fundo Monetário internacional, que depois recapitulou as coisas e põe esses são os grandes temas: a redução da pobreza, a boa governação, transparência etc. E sem eu querer questionar isso, a verdade é que não se permite que esses governos sejam avaliados por um programa interno, por uma agenda própria que eles contrem. Controem em consonância com o que são os valores dos doadores. Tudo bem, eu aceito isso, uma vez que eles se intitulam a si próprios como doadores. Mas eu acho que não se dá nem essa oportunidade e nem tempo para medir coisas que são impossíveis de serem feitas nesse curto espaço de tempo. Há nações européias que demoraram centenas de anos a fazerem aquilo que se pede agora que Moçambique faça em 10, 15, 20 anos.

O QUE O DOMÍNIO DA FRELIMO FAZ COM QUE A VIDA INTELECTUAL AQUI EM MOÇAMBIQUE. DIZEM QUE A FRELIMO DOMINA O QUE É A HISTÓRIA MOÇAMBICANA. É A DONA DA HISTÓRIA.

A Frelimo faz o que todas as forças políticas que são vencedoras fazem. Quem escreve a história são os vencedores. A Frelimo venceu a luta armada, a libertação nacional e criou aquilo que são os mitos fundadores da nação. Teve esse grande privilégio. Eu acho que, historicamente, de novo eu volto a este ponto, historicamente é preciso dar essa possibilidade. Porque os mitos fundadores da nação, como os da nação portuguesa, foram criados há séculos e séculos atrás. Do Brasil também. E se vamos questioná-los agora, alguns deles têm pouco fundamento histórico, tem pouca veracidade histórica, não é? Então a Frelimo teve que inventar uma história para o país, teve que sugerir esquecimentos. Sobretudo não é aquilo que é reivindicado como memória, o mais importante é aquilo que a Frelimo sugere que seja esquecido do passado. E isso é, digamos, nós temos que perceber que não há uma grande espaço de manobra para contestar isso agora. E isso vai sendo contestado à medida que há, que se criam elites que são capazes depois de terem estofo, bagagem para criar outras leituras do que foi o passado. Mas note que há uma coisa: estou insistindo sempre nisso porque essa leitura da história passada foi falseada em toda a África e foi falseada no sentido terrível de tornar África sempre um objeto vitimizado. África nunca foi sujeito de nada, é como se fosse, digamos assim, aquilo que é a retração daquela idéia fácil de que o passado era um passado harmonioso, a África vivia numa situação de paraíso, até a chegada do colonizador. Os africanos estavam todos sentados e reunidos à volta de uma mesma fogueira, à sombra de uma mesma árvore. Isso nunca foi verdade. África sempre viveu com conflitos internos, com elites que participaram na escravatura, participaram com cumplicidade no colonialismo, na escravatura e nos grandes momentos de sofrimento deste país. E o que está a acontecer hoje é só o prolongamento deste passado. As elites de hoje estão fazendo aquilo que essas outras elites fizeram no passado. Mas essa idéia de uma história dinâmica, com conflitos internos, não passa. Foi apagada em nome desta outra idéia de uma África mitológica, mistificada.

E NESTE CONTEXTO QUAL É O PAPEL DO MIA COUTO?

O que eu estou fazendo como escritor e como cidadão, onde eu posso ter intervenção, é alertar que estamos construindo uma mentira. Essa mentira algumas vezes é necessária, historicamente, porque há mentiras que, por consenso, dizemos: ok, vamos aceitar esta mentira à volta de um personagem, de um herói que nós queremos identificar e que é importante no sentido de criar valores morais etc. Portanto, é uma mentira negociada. Mas há outras mentiras que são fortemente inibidoras, nos paralisam e uma delas é esta que eu estava a dizer: a recriação de um passado mistificado é uma coisa terrível.

OS JOVENS EM MOÇAMBIQUE, NAS ZONAS URBANAS E OS MAIS ESTUDADOS, SENTEM-SE PARALISADOS. E A INCAPACIDADE DO GOVERNO DE CRIAR EMPREGO E RENDA LEVA A UM NÍVEL DE TENSÃO SOCIAL QUE PARECE UMA BOMBA RELÓGIO.

Sem dúvida. Essas tensões estão presentes e nós fomos surpreendidos, há ano e meio atrás, com uma revolta popular na cidade de Maputo quando foi feito o aumento dos preços dos transportes públicos. E isso está presente. Não creio que isso aconteça depois sozinho porque as pessoas acumularam a frustração. Isso é um território onde outros podem fazer alguma manipulação política e criar focos de conflito. Eles não procedem sozinhos dessa maneira por acumulação simples de miséria. Também há uma coisa que é preciso dizer com justiça: as pessoas esperam sempre que o governo faça. A capacidade de ter iniciativa, de criar respostas com movimentos sociais, com caminhos alternativos está também paralisada. Estes jovens estão paralisados interiormente e do ponto de vista daquilo que é a sua cultura. Porque aqui é assim: a relação com a política é vista como uma relação de familiaridade. O presidente é o nosso grande pai, os grandes chefes são os nossos tios, a nossa família. E nós pedimos ao pai que olhe por nós. É uma relação...qualquer reunião que vocês assistam, pública, as pessoas dirigem-se para quem está a dirigir a reunião, os processos políticos, quem tem controle dos processos políticos, é tido como um grande pai. É uma relação de parentesco. E isto liga-se com aquilo que vos falei antes, que é este sentimento de familiaridade. África é uma grande família, em África estamos nós todos ligados por compromissos familiares. E Mugabe é o nosso tio, os dirigentes do Sudão são os nossos cunhados. E tudo isto é visto como uma grande família e, portanto, qualquer ruptura política é vista como uma coisa difícil de se imaginar.

QUAIS OS MAIORES DESAFIOS DE MOÇAMBIQUE HOJE? FOME, POBREZA, SAÚDE EDUCAÇÃO?

Acho que o maior desafio do país é o nível do pensamento, da atitude, da mentalidade. Nós temos que ser os criadores da riqueza. E se não criarmos a riqueza, não tivermos respostas nós próprios, não tivermos capacidade de iniciativa para questionar os outros, não reagir apenas quando é preciso ter uma resposta explosiva, esse é o grande desafio. Para mim, é ter a capacidade crítica, capacidade de entender os processos como processos históricos e não como essências. Hoje os moçambicanos vêem-se como... por exemplo, o simples fato de olharem-se como moçambicanos é tido como uma coisa não-histórica, a moçambicanidade é como se fosse uma marca quase biológica, uma espécie de herança genética de há séculos. Mas isso não é assim. A moçambicanidade está a ser criada ainda hoje. É um processo recente. E a maneira como se olha os heróis do passado é como se eles já fossem todos moçambicanos, no sentido de olharem a si mesmos como moçambicanos e lutarem por Moçambique. Nenhum desses heróis da resistência que lutou contra a administração colonial pensava em Moçambique. Pensava na sua região local e reivindicava uma competição, não liberdade para os povos. Eles sequer entravam em competição de classe. Eles tinham interesses divergentes em termos de exploração de recursos, das pessoas, da elite colonial. Eram conflitos de elite, não eram conflitos de resistência.

NÃO HAVIA UM SENTIMENTO DE NAÇÃO?

Alguns nem sequer pensavam nisso. Alguns tinham acesso a rotas comerciais, tinham acesso à escravatura, ao tráfico de escravos. E disputavam isso com os portugueses. E resistiam contra os portugueses no sentido de eles próprios dominarem esse tipo de comércio, de exploração de recursos. E hoje são reabilitados como heróis da resistência nacional, como moçambicanos que já há dois, três séculos se destacavam nessa luta. Não se trata de diminuir o valor dessas pessoas. O que estou questionando não é que eles tenham mérito histórico e têm que ser hoje celebrado, mas têm que ser celebrados com a verdade e não com esta reconstituição que é falseada.

MOÇAMBIQUE É BASTANTE HETEROGÊNEO DO PONTO DE VISTA ÉTNICO E TAMBÉM RELIGIOSO. COMO ISSO VAI EVOLUIR NOS PRÓXIMOS DECÊNIOS?

Aquilo que são chamados conflitos étnicos e tribais em Moçambique não têm esse peso para determinarem mudanças daquilo que é o sentido que as pessoas têm. Acho que aqui também Moçambique precisa de tempo. Esses são processos históricos que levam tempo. Não se pode pedir a governos e administrações políticas que resolvam situações que têm séculos para trás. E o que se pode dizer, e aqui eu tiro o chapéu à Frelimo, digamos, é preciso saudar o que a Frelimo fez pela consolidação dos valores nacionais acima dos valores étnicos e tribais e raciais. Eu fui parte desse processo, fui militante da Frelimo até há alguns anos, agora não sou mais. Mas reconheço que esse foi um contributo imprescindível que a Frelimo deu para esse país. E a Frelimo ainda tem um papel importante a desempenhar, no sentido de dar continuidade a processos que vão sedimentar aquilo que é o reconhecimento da moçambicanidade. Agora, do ponto de vista religioso, há um potencial conflito. O norte, que é muçulmano; o sul, que é predominantemente cristão e católico. Depende da maneira como essas tendências que hoje manipulam as religiões em geral, e neste caso a África oriental, a manipulação da religião muçulmana, como é que isso é feito. Isso é qualquer coisa que pode me preocupar sim.

EM QUE SENTIDO?

No sentido daquilo que aconteceu na Somália. Não na Somália porque aquilo não há Estado e não é um bom exemplo, mas no Quênia, Tanzânia. Manipulação para que algumas destas crenças em Moçambique se radicalizem e sejam usadas como instrumento político e militar dentro desse contexto mais internacional, em que há este conflito quase em escala planetária.

E A FRELIMO TEM DOMINADO BEM O ASSUNTO OU SÃO OS INTERESSES DAS RELIGIÕES QUE SE SOBREPÕEM POR VEZES E INFLUENCIAM OS PARTIDOS?

A Frelimo começou como uma frente de libertação muito dominada por aquilo que era gente de formação católica e cristã. E ainda hoje é. Mas o que a Frelimo tem feito é se esforçado para incorporar, e não antagonizar outras forças religiosas e regionais. Isso tem sido feito.

ENTIDADES COMO A CPLP ESTÃO DE FATO INTEGRANDO OS PAÍSES?

Não... a um certo nível, sim. Em relação à CPLP, acho que há uma certa dificuldade da instituição definir-se, demarcar-se, afirmar-se. Ela é pouco visível. Pontualmente acho que há programas que estão caminhando razoavelmente bem. Mas, no conjunto, acho que não espero muito. E há uma certa lusofonia que foi contestada, e acho que corretamente, que era protagonizada por essa CPLP. Moçambique sempre teve alguma reserva de que lusofonia estamos a falar, que tipo de irmandade estamos a tentar criar. E isso foi saudável, alguém a questionar no princípio. Estamos a falar da mesma coisa todos nós, não é? E há coisas que não se pode pedir. Não são os governos, não são as vias institucionais que vão resolver. Em nível empresarial, por exemplo, agora começa a haver algum interesse e alguma troca de serviços entre editoras. Livros. É uma coisa relativamente recente. Há editoras no Brasil que se interessam em publicar coisas dos africanos e coisas dos portugueses. Nós somos publicados em Portugal e somos disputados por editoras de Portugal e do Brasil etc. E isso não se pode pedir que seja a CPLP. Isso é algo que se resolve ao nível empresarial. Há outras dinâmicas que caminham por si e não podem ser substituídas por nada. Já se tentou editar livros por razões de solidariedade. Ok. Isso tem o seu espaço, mas não resolve, não pode substituir aquilo que são os circuitos montados para a circulação dos discos e dos livros.

COMO ESTÁ A RECEPTIVIDADE AOS SEUS LIVROS NO BRASIL?

Sim, há receptividade. É visível. Eu trabalhava com uma editora e mudei e a partir daí foi muito claro que os meus livros passaram a ser mais conhecidos, mais publicados, mais divulgados e acho que isso hoje corre bastante bem.

HOUVE INFLUÊNCIA DA LITERATURA BRASILEIRA NO SEU TRABALHO?

Enorme, enorme. Muito grande. Não só no meu, mas na minha geração, na geração anterior à minha. Agora, infelizmente isso piorou. Hoje ninguém conhece o que está se fazendo no Brasil. Exceto as novelas. Mas ao nível literário pouca gente conhece o que se está fazendo. Não chega, não chega.

QUAIS AUTORES LHE INFLUENCIARAM?

Muitos. Fui muito marcado pela poesia porque eu sou filho de um poeta. O que forrava a minha casa era estantes de poesias. Mas se eu posso destacar alguém...Adélia Prado, Guimarães Rosa, Drummond de Andrade, João Cabral de Mello e Neto, Lins do Rêgo, Manuel Bandeira...são muitos mesmo.

AS NOVELAS BRASILEIRAS SÃO MUITO PRESENTES NOS PAÍSES AFRICANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA E COMEÇAM A INFLUENCIAR O JEITO DE SE FALAR, DE SE VESTIR. ISSO É UMA INVASÃO CULTURAL? É RUIM?

É, mas nós queremos...(risos)...

COMO AVALIA A PRESENÇA DA CULTURA BRASILEIRA VIA TELEVISÃO?

Acho que é desbalanceado, porque há uma presença hegemônica a outras presenças que nós queríamos do Brasil e não as temos. Se tivéssemos a presença de outras coisas, por exemplo, seriados que são de maior qualidade, minisséries brasileiras, cinema brasileiro que hoje tem bastante qualidade, música brasileira de maior qualidade. Não passa. Portanto há ali um filtro que só deixa passar um certo tipo de coisas. E acho que isso é que é perigoso. Não sou contra as telenovelas. Acho que muitas delas têm uma qualidade duvidosa, para dizer a verdade, do ponto de vista artístico. Mas também elas melhoraram muito. Elas são bem feitas, são bem produzidas, os atores brasileiros são muito bons, há uma capacidade de realização muito boa. E portanto o produto tem qualidade. Desse ponto de vista enquanto produto de sedução funciona muito bem. O que faz falta é que haja outras coisas, que nós conheçamos outros brasis, que não é só aquele.

HÁ O RISCO DE UM DIA O BRASIL SER ACUSADO DE FAZER IMPERIALISMO CULTURAL?

Não é o Brasil. É Globo. São certos canais no Brasil que produzem, produzem em nome do Brasil. E em certa altura o risco é esse. Nós pensarmos que o Brasil é aquele, confundir o Brasil com aquilo. De maneira que aqui já houve, antes da independência, o Brasil já estava aqui, pelas raízes culturais etc. Roberto Carlos nas cidades, nas zonas suburbanas, principalmente, era um ídolo. Ele era um rei aqui também. E Roberta Miranda e as duplas sertanejas. Mas não digo que isso é mal, tem o seu cabimento. Mas depois se se perguntarem por Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento, Gilberto Gil, já era um pequeno núcleo que tinha um canal privilegiado, uma relação privilegiada com o Brasil que conseguia ter esse laço. Portanto o que há aqui é falta de pluralidade. Não temos uma visão plural, composta dos diferentes produtores de cultura do Brasil.

ALGO QUE CHAMA A ATENÇÃO NOS SEUS LIVROS É QUE OS PERSONAGENS SÃO NEGROS...

Quase todos.

...ISSO É DELIBERADO OU AS HISTÓRIAS VÊM NATURALMENTE COM OS PERSONAGENS NEGROS?

Essas coisas acontecem porque fluem naturalmente ou é falso. E isso nota-se logo quando se lê o texto. O texto não pode mentir nesse aspecto. É uma mentira que não mente. Eu acho que a vivência que eu tive, e de alguns outros brancos moçambicanos, mulatos moçambicanos, de indianos moçambicanos, foi de tal maneira simbiótica...eu nasci numa cidade em que essas coisas estavam muito misturadas. A segunda língua que eu falei na minha vida era uma língua africana, uma língua banto. E, portanto, ali eu recolhi. Muito do meu imaginário começou ali a ser forjado...não faço reivindicação de que tenho um imaginário negro, não é isso, mas não sei exatamente o que é um imaginário negro, mas é africano sim, sem dúvida. É mestiçado e quando me vejo como uma raça, tenho que fazer um esforço. Tenho que afinar a minha visão para me ver como uma raça.

QUANDO SE FALA EM LITERATURA MOÇAMBICANA NO BRASIL, O NOME É MIA COUTO. COMO ESTÁ A LITERATURA MOÇAMBICANA HOJE. HÁ NOVOS AUTORES SURGINDO, COM POTENCIAL PARA CONQUISTAR MERCADOS FORA DE MOÇAMBIQUE?
Há outros nomes, mas que acho que já estavam surgidos quando eu comecei. São da minha geração e tem todo o mérito para serem conhecidos. E devem ser conhecidos. Esse processo está começando agora. Há mais moçambicanos que estão chegando e estão sendo traduzidos. Mas nomes de jovens na literatura é que não estão surgindo. Acho que Moçambique está a pagar o preço destes 16 anos de guerra civil em que não houve escola. Houve uma ruptura. Não houve quem criasse esse sentimento de amor pela escrita, pelo livro. Houve uma espécie de um deserto e que agora se repercute em nós.

domingo, 8 de novembro de 2009

LIBERDADE DE IMPRENSA EM ANGOLA

A ONG Repórteres Sem Fronteiras divulgou relatório sobre a liberdade de imprensa no mundo.

Angola ficou na posição 119 num ranking de 175 países.

Em relação a 2008, Angola caiu três posições.

Há 19 países africanos em situação pior que Angola.

O país com maior liberdade de imprensa é a Dinamarca.

O pior é a Eritréia.

Clique aqui e leia o relatório dos Repórteres Sem Fronteiras sobre a liberdade de imprensa em Angola.

sábado, 7 de novembro de 2009

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

OLHARES DO FUTURO

Em todos os lugares, as crianças encantam e chateiam pela curiosidade.

Num primeiro momento, observam a câmera de longe.

Estudam o branco que manuseia um equipamento estranho.

Aos poucos, vão se aproximando.

Pulam diante da lente.

Fazem palhaçadas.

Ficam incontroláveis.

Gritam.

Chamam os amigos.

Depois de alguns minutos é impossível trabalhar.

Pedem dinheiro, doce, cadernos, lapiseiras, pastas.

Estendem a mão.

Sempre com olhares fixos.

Olhares de São Tomé e Príncipe, de Cabo Verde e da Guiné-Bissau.

Olhares que vieram lá do futuro, mas como se o futuro já fosse agora.








quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O SONHO BRANCO DE ELIANE VELOZO


Conheci a fotógrafa Eliane Velozo no aeroporto da Cidade da Praia, em Cabo Verde.

Eu encerrava um périplo de 25 dias por São Tomé, Cabo Verde e Guiné-Bissau.

Aguardava o vôo para Lisboa quando ela se aproximou.

Perguntou se eu era o jornalista brasileiro que também estava a caminho de Lisboa.

Eliane estava em Cabo Verde por conta da exposição fotográfica Sonho Branco.

Em Portugal, também iria acertar os detalhes para outra exposição.

Enquanto aguardávamos o vôo, Eliane me contou sua história, de como vários sonhos com pessoas e lugares dos quais nunca havia ouvido a guiaram para os Estados Unidos, Togo e Pernambuco.

Fotografou plantações de algodão nos três países e mergulhou nas histórias das pessoas.

Portadora de uma doença degenerativa nos olhos, Eliane tem apenas 10% de visão.

A menos de um metro de mim, ela disse que não conseguia ver meus olhos.

Ela carrega uma lupa na bolsa para ler, ver as fotos.

Eliane me contou como tira as fotos.

Muitas vezes sem saber direito o que vai encontrar na revelação.

O que mais me impressionou na Eliane na meia hora em que estivemos juntos foi a alegria de estar fazendo o que gosta.

Em vez de reclamar da dificuldade visual, ela continua a fotografar e a estudar novos projetos.

Não sei se é isso, mas sinto que a dificuldade que tinha tudo para tornar a Eliane uma pessoa amarga e refém de si própria a libertou e, a cada dia, a empurra cada vez mais para o mundo.

Eliane é a prova de que somos do tamanho dos nossos sonhos.

Para quem estiver em Lisboa entre os dias 19 e 25 de novembro, vale conferir a exposição Sonho Branco no Instituto Português de Fotografia.

A foto de abertura do post é o convite para a exposição.

Recebi o texto abaixo da Eliane (se preferir ler no sítio original, clique aqui).

“A exposição em Lisboa abre no dia 19 de Novembro pelas 19 horas e vai estar patente ao público até 25 de Novembro no Instituto Português de Fotografia em Lisboa na rua Ilha terceira, 31 A. Abre no Porto no dia 3 de Dezembro pelas 21,30 e vai estar patente ao público até dia 26 de Dezembro no Instituto Português de Fotografia do Porto no Rua da Vitórias, 129.Segundo a autora "A mostra Sonho Branco é o resultado de três jornadas fotográficas da artista Eliane Velozo, pelos campos de algodão no Brasil, nos Estados Unidos da América do Norte e do Togo, no Continente Africano. O projeto trafega pelos territórios da memória familiar e ancestral além de ter um contraponto fundamental no território dos sonhos". Depois de ter sido exibido nos Estados Unidos, no Brasil e no Canadá, chega finalmente s Portugal.Esta artista, embora ainda pouco conhecidas em Portugal é sem dúvida um nome a reter na memória, é formada em Comunicação Visual pela Universidade Federal de Pernambuco e Mestra em Belas Artes pela Universidade de Illinois em Chicago, nos Estados Unidos. É portadora de baixa habilidade visual e trabalha com aproximadamente 10% da habilidade visual de uma "pessoa normal". É pois uma exposição a não perder.Texto de António Vieira da Silva”

terça-feira, 3 de novembro de 2009

THE BANG-BANG CLUB

Estou no aeroporto de Joanesburgo.

Acabei de comprar The Bang-Bang Club, do Greg Marinovich e João Silva.

O livro conta a história de quatro jovens fotógrafos que cobriram os conflitos nos bairros pobres da África do Sul no início dos anos 90.

Leio na contracapa do livro:

"Eles trabalharam juntos, arriscaram suas vidas juntos, comemoraram juntos. Ken Oosterbroek morreu, atingido por uma bala perdida enquanto trabalhava. Kevin Carter cometeu suicídio algumas semanas depois de vencer o prêmio Pulitzer pela foto de uma criança morrendo de fome no Sudão (uma foto em que uma criança esquelética, nos últimos momentos, é observada por um abutre). Neste livro memorável, Greg Marinovich e João Silva, os dois integrantes sobreviventes do grupo, contam sua história maravilhosa."

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A TV RECORD, MARCELO CRIVELA, ÁFRICA E A CAMPANHA PRESIDENCIAL DE 2010

A TV Record está presente em todos os países de língua portuguesa da África.

Assim como as da TV Globo, suas novelas fazem sucesso.

Há programas locais da Record em todos os países, feitos por jornalistas e apresentadores locais.

Em Moçambique a Record transmite em canal aberto a partir da emissora local Miramar.

Na semana passada, o bispo Marcelo Crivela esteve em Maputo visitando a emissora da Igreja Universal do Reino de Deus.

Crivela disse que será candidato a presidente da República em 2010.

MAPUTO-JOANESBURGO

No aeroporto de Maputo precisei mostrar o passaporte apenas duas vezes.

No check-in e no momento do embarque.

Nao tive que entrar em sala de aduana para declarar valores.

Nao sofri tentativas de achaque.

Ninguem me perguntou se eu levava meticais.

Ninguem tentou criar dificuldades para me vender facilidades.

domingo, 1 de novembro de 2009

CONEXÃO LUANDA-MAPUTO

Daqui a alguns dias começam os vôos diretos entre Luanda e Maputo, uma cidade organizada que em nada lembra o caos da capital angolana.

Muitos poderão se surpreender com o fato de só agora haver ligação aérea direta entre os dois países, geralmente feita via África do Sul.

Mas não deveriam, se pensarmos que hoje só a TAAG, a companhia aérea angolana, tem vôos diretos para o Brasil.

Apesar de haver cerca de 35 mil brasileiros vivendo e trabalhando em Angola.

A conexão vai intensificar o comércio entre Moçambique e Angola.

E cada vez mais angolanos virão fazer negócios em Moçambique.

Nos hotéis e restaurantes caros sempre há angolanos.

Maputo deve se tornar também um destino turístico importante para os angolanos.

Hoje, num restaurante de Maputo, o dono do estabelecimento comentava entusiasmado o alto valor dos vinhos que um grupo de angolanos consumia numa mesa próxima.