Bom, o assunto parece mesmo despertar o interesse.
E como o meu amigo R. comentou
no post anterior sobre o tema, tampouco parece haver resposta certa.
Luanda tem sido escolhida ano após ano a capital mais cara do mundo.
Na frente de Tóquio, Genebra, Nova York, Londres, Paris e aquelas capitais nórdicas onde todos os problemas da humanidade parecem ter sido resolvidos há uns dois séculos.
Vamos aos fatos.
Entre 1975 e 2002, o país estava mobilizado para a guerra civil.
Não se investiu em infra-estruturas, escolas etc. porque a prioridade era outra.
Sem indústrias, o país não produz nada.
Tudo é importado.
Depois da guerra, as multinacionais (as petroleiras e empreiteiras, especificamente) começaram a desembarcar em peso em Angola.
Além dos diretores, presidentes e consultores, também precisaram trazer profissionais de níveis intermediários para realizar o serviço, diante da carência de mão-de-obra qualificada em Angola.
Esse pessoal passou a disputar a pouca oferta de tudo o que havia em Angola: casas, apartamentos, comida, tudo.
Imaginem que, entre 1975 e 2002, não se ergueu um novo prédio residencial em Luanda (pelo menos não na quantidade necessária).
Praticamente não se fez obras de saneamento básico, infra-estrutura.
Nada.
O esforço era para a guerra.
Desde 2002, o número de estrangeiros que chega ao país só aumenta, aumentando também a pressão inflacionária.
Além disso, começa a surgir uma classe média angolana com poder de compra para consumir bens, produtos e serviços de qualidade.
Isso explica os altos preços.
Uma casa de dois ou três quartos em condições razoáveis de habitabilidade em Luanda, em bairros como Maianga, Miramar, Maculusso, Vila Alice, Ingombotas (posso estar confundindo bairros com regiões. Peço desculpas) não sai por menos de US$ 10 mil mensais.
Arriscaria dizer que há uma grande probabilidade de não sair por menos de US$ 12 mil, US$ 15 mil.
Alguém perguntou quanto custaria comprar uma casa.
Depende, mas acho que só empresas estão comprando casa aqui por absoluta necessidade de hospedar os funcionários.
Só milionários compram casa em Luanda.
Não vale a pena.
Por que tão caro?
Porque não há oferta.
Somente agora começam a ser feitos lançamentos de imóveis na cidade.
Há prédios residenciais e comerciais sendo inaugurados por toda parte, mas ainda vai levar tempo até os preços caírem.
Quanto tempo?
Não sei.
Já ouvi falar em dois, três, quatro, cinco anos.
Ninguém sabe.
Qual seria o salário ideal para viver em Luanda?
Depende de uma série de fatores que várias pessoas já comentaram.
Se o seu contrato prevê que o empregador vai pagar o aluguel, é importante você saber onde fica a casa.
Qual bairro?
A rua é calçada?
Em Luanda, várias ruas em regiões centrais estão em péssimo estado.
Além dos buracos (muitas não têm asfalto), há problemas de esgoto, bueiros sem tampa etc.
A casa precisa ter um gerador e um tanque reserva para armazenar água.
Os cortes de energia são frequentes em Luanda.
Às vezes passamos três, quatro semanas sem falta de luz.
E depois vem uma semana inteira com cortes de seis, sete horas diárias.
Sem energia elétrica, não há água.
E há bairros que ficam às vezes mais de uma semana sem receber água.
Lembre-se que os aluguéis aqui são pagos com um ano de antecedência.
Portanto, se o seu contrato de trabalho prevê que você vai pagar o aluguel e você conseguiu uma casa de US$ 10 mil, lembre-se que terá de desembolsar, de cara, US$ 120mil.
Se você tem filhos, precisa se preocupar com as escolas.
Estou por fora dos preços, mas já escutei que as escolas internacionais cobram entre US$ 3 mil e US$ 4 mil por mês (talvez mais). Também com um ano adiantado.
Aqui também você vai precisar de um carro um pouco maior.
Não precisa ser uma land rover, mas um RAV-4 da Toyota, que é o carro mais popular em Luanda.
Prepare mais uns US$ 20 mil a US$ 25 mil para comprar um usado em condições.
O nosso carro é um RAV-4 ano 1997.
Pagamos US$ 18 mil há um ano e meio.
E qualquer coisa que você precise fazer no carro é uma fortuna.
Qualquer coisa.
Vou traduzir: aqui, qualquer coisa começa em US$ 500.
A cidade de Luanda não é muito grande.
Arriscaria dizer que seria mais ou menos do tamanho do Plano Piloto, para quem conhece Brasília.
Mas é o caos urbano.
O número de candongas (as vans) diminuiu bastante, mas ainda fazem bastante confusão pela cidade.
O problema da falta de energia impede que os sinais de trânsito funcionem.
Com isso, é um salve-se quem puder nos cruzamentos.
Como as pessoas aqui tendem a comprar carros enormes ( 4x4) e as ruas são estreitas, boa parte de mão-dupla, o trânsito fica ainda mais complicado.
Não se acha lugar para estacionar com facilidade.
Se o seu contrato não tiver um motorista, vale a pena contratar um.
Em alguns lugares é simplesmente impossível ir sozinho.
Não há onde deixar o carro e não dá para resolver tudo a pé.
O salário dos motoristas varia bastante.
Mas é aquela velha história: você recebe aquilo que você paga.
Os salários variam entrte US$ 200 e US$ 500.
É muito?
É pouco?
Não sei.
Tudo bem que os estrangeiros vivem num universo paralelo.
Os nossos preços não são os preços dos locais.
Em geral, pois os angolanos são muito afetados por toda a pressão inflacionária no país.
A alta dependência do petróleo e a falta de diversificação da economia não criam empregos.
Boa parte da população sobrevive vendendo coisas nas ruas.
Portanto, é impossível comparar esse tipo de coisa.
O estrangeiro que vem para cá vive na bolha do estrangeiro, que é mais cara, pois ele tenta reproduzir aqui o mesmo estilo de vida que levava em seu país de origem.
Só que os produtos e serviços que ele consumia lá não existem aqui e, quando existem, são mais caros.
Para os empregados domésticos, é o mesmo raciocínio.
Salários variam de US$ 200 a US$ 500.
Eu, particularmente, acho difícil você conseguir contratar alguém por US$ 200 mensais.
O ideal, como em qualquer lugar do mundo, é contratar alguém indicado.
Serviços também são caros.
Pintores vão cobrar US$ 200 para pintar uma parede.
Eletricistas vão cobrar US$ 100 para puxar uns fios e consertar um curto-circuito.
Encanadores vão cobrar US$ 100 para serviços de uma hora.
É preciso ter uma boa rede de contatos e contratar quem sabe fazer.
A falta de qualificação é grande e, como já aconteceu comigo várias vezes, é preciso contratar outra pessoa para refazer o trabalho que alguém acabou de fazer.
Supermercado?
Prepare-se para gastar uns US$ 300 num carrinho com produtos que no Brasil sairiam em torno de R$ 200.
Há alguns bons restaurantes em Luanda.
Depois de um tempo aqui comecei a me acostumar com os preços e a perder um pouco a noção entre o caro e o barato.
Sei lá: um jantar simples sem vinho sai por algo entre US$ 40 e US$ 60 por pessoa.
Num lugar que, em Brasília, onde eu morava antes de vir para cá, sairia por R$ 40.
Está fazendo as contas?
Vamos lá: US$ 10 mil de aluguel (se você for um cara de sorte) + US$ 400 de motorista (se você for um cara de sorte) + US$ 400 de empregada doméstica (se você for um cara de sorte) = US$ 10.800.
Seu mês começa em US $ 10.800.
Se você for um cara de sorte.
Se não trouxer filhos.
Se conseguir um carro que não dê problemas a toda hora.
Se alugar uma casa que não tenha vazamentos nem problemas elétricos.
Se não tiver que contratar um segurança para ficar na sua porta.
Faltou dizer aqui de coisas importantes que você precisa negociar e alguém mencionou num dos comentários.
As folgas.
Em geral, os estrangeiros das multinacionais trabalham três ou quatro meses aqui e têm direito a duas semanas de folga no seu país de origem.
Há gente que trabalha num outro esquema: 28 dias direto, sem fim de semana nem feriado, e outros 28 dias de folga no seu país de origem.
Quem fica três ou quatro meses e tem direito a folga também tem direito a passagem para seu país de origem.
O mesmo para os que fazem 28 por 28.
Essa é a média.
Mas há dezenas de outros tipos de contrato.
Gente que negocia duas passagens por ano para o seu país de origem etc.
Aí é a negociação caso a caso.
O importante é você não se iludir nem se deslumbrar quando te acenarem com um salário que no Brasil seria espetacular.
Um salário é apenas um número sem valor se você não conhece a realidade do lugar para onde vai.
Tem que colocar tudo na ponta do lápis.
Não embarque em aventuras.
E, se puder, venha conhecer Luanda (ou o lugar onde vai trabalhar e morar) antes de decidir.
Sei de gente que pede para sair no primeiro mês.
A realidade aqui é muito diferente da brasileira.
Não interprete nada a partir da sua perspectiva.
Você precisa mudar a forma de raciocinar.
As regras são outras.
Os códigos são outros.
Mas também é uma grande experiência.
Assim como aí no Brasil você é obrigado a conviver com brasileiros muito chatos e malas, aqui você também vai conhecer muitos angolanos chatos e malas.
Mas também vai conhecer angolanos muito legais que vão mudar o seu jeito de encarar a vida.
Pense nisso e não acredite em nada do que escrevi.
Venha ver como é.