Depois do atentado das Flec contra o comboio que levava a seleção do Togo para Cabinda, a imprensa internacional passou a publicar reportagens sobre as condições de vida na província.
Segundo algumas reportagens, as Flec exigem que mais recursos do petróleo sejam investidos em Cabinda.
As Flec alegam que, pela quantidade de petróleo extraído da região, deveria haver mais investimentos no enclave.
Argumentam que a população vive na miséria.
Provavelmente os argumentos são válidos, apesar de não justificarem o ataque.
Mas quem conhece Angola sabe que os problemas não são apenas esses e nem estão apenas em Cabinda.
O angolano médio vive na miséria.
Vive nos musseques sem água, sem luz, sem coleta de lixo, sem transporte, sem serviço de saúde pública, sem escola.
Nos hospitais públicos, não é raro o angolano ser obrigado a subornar do segurança da portaria aos enfermeiros, médicos e técnicos para obter qualquer tipo de serviço. É preciso subornar o porteiro para conseguir fazer uma visita a um parente internado.
Nas escolas públicas, não é raro os pais precisarem subornar os professores para que eles dêem aula aos filhos.
Nos serviços públicos em geral, não é raro o angolano ter que subornar, dar uma gasosa, um agradinho para se conseguir qualquer coisa.
O glorioso aeroporto 4 de Fevereiro agora parece glorioso mesmo.
O desembarque está bonito, iluminado, com balcões largos para receber o estrangeiro.
Os formulários de saúde que antes precisavam ser disputados a tapa no saguão da imigração agora estão disponíveis em balcões onde podem ser preenchidos tranquilamente.
Mas depois de receber o carimbo no passaporte e deixar o balcão da imigração, lá tem o estrangeiro que mostrar de novo o passaporte para outro funcionário angolano.
É como se, nos segundos entre receber o carimbo no passaporte e encontrar o funcionário angolano seguinte, houvesse alguma possibilidade de se falsificar o visto ou praticar alguma outra irregularidade.
O funcionário angolano pega o passaporte e começa a folheá-lo em busca do visto e do carimbo.
Compara a foto no passaporte com o rosto do portador.
Ainda fico intrigado com esse procedimento.
Resquício da guerra civil, talvez.
Ou uma forma de criar mais empregos para os angolanos despreparados para outras funções.
Ou, então, uma forma de fiscalizar o trabalho do agente da imigração que talvez tenha falhado na tarefa de conferir o passaporte.
Talvez não tenha notado que o visto estava errado.
Talvez tenha carimbado o passaporte indevidamente.
Depois de recuperar a bagagem, os passageiros teriam a opção de escolher entre duas saídas: canal verde, nada a declarar. Ou o canal vermelho, com bens e mercadorias a declarar.
Mas outros funcionários angolanos fazem uma barreira na saída e obrigam todos os passageiros a passar pelo canal vermelho.
Angolanos e estrangeiros.
Todos são culpados até prova em contrário.
O preço pela falha nos serviços de inteligência do governo angolano, que resultaram no ataque à seleção do Togo em Cabinda, será rateado entre todos os que precisarem pisar o solo angolano.
O estado policial ficará mais evidente e mais forte.
A população continuará desinformada pelas publicações oficiais, que só divulgam notícias positivas ao governo.
Avaliações e análises de entidades internacionais sobre o país são divulgadas pela metade.
Os elogios são publicados.
As críticas ignoradas.
A realização do CAN era a oportunidade de Angola mostrar ao mundo que o país está em paz, que os angolanos são capazes de realizar um evento internacional em segurança.
Angola sai do CAN com o orgulho ferido.
Eu, de fato, lamento o atentado.
Angola e os angolanos não merecem mais a guerra.
O atentado, no entanto, é um alerta para que haja menos arrogância, menos empáfia.
É um alerta para que haja mais humildade.
Rés-do-chão
2 horas atrás


5 comentários:
Essa burocracia insana e o suborno criminoso será herança da colonização portuguesa? Nós sempre tivemos o mesmo problema aqui no Brasil. Ainda bem que estamos evoluindo, lentamente, mas evoluindo para eliminar estas pragas indesejáveis.
Para o anónimo:
Eu fui educado pelos meus pais a quem muito devo...no entanto não posso passar a vida a desculpar as minhas falhas e o meu mau feitio com a educação que me deram. Se tenho a inteligência para identificar essas falhas, também tenho que ter a inteligência para as ultrapassar, ou no minimo, não culpar os outros pelos meus erros e em vez disso assumi-los como meus. Não vou chegar aos 70 anos e dizer que a culpa de não ter partilhado os "deveres domésticos" é do meu pai ou da minha mãe porque eu não fui educado para tal...isso soa-me mais a desculpa do que a justificação razoável.
Abraço e parabens pelo blog.
Tem herança portuguesa como ponto de partida, modificada pela pobreza e miséria histórica. Não há saída coletiva com a cultura do ter que subornar para sobreviver. Faz com que 99,0% dos angolanos se debatam e quanto mais se debatem (e subornam para conseguir as coisas) mais se afundam coletivamente. Só educação e principalmente 1 filho por casal (como na China)pode dar alguma luz para daqui quem sabe a 20 anos.
Se o problema dos angolanos é hereditário não há remédio.
Vão morrer com esse problema.
Já no Brasil que vai quase com 2 séculos de independência e ainda se queixa da hereditariedade lusa...
Querido Diário,
Neste trecho
"O angolano médio vive na miséria.
Vive nos musseques sem água, sem luz, sem coleta de lixo, sem transporte, sem serviço de saúde pública, sem escola."
eu pensei: então, de certa forma, está faltando é organização. Porque obviamente há as pessoas e há a necessidade. Então o que falta realmente? Parece faltar ordem mesmo, vontade. Alguém que aponte e diga "vocês vão fazer X, os outros farão Y.."
Concordo com o Anônimo de 01/02 22h: se for pra ficar reclamando da ascendência portuga então estamos todos perdidos.
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