quarta-feira, 31 de março de 2010

LUANDA, DIA 3 - REVISITADA

O terceiro texto sobre as impressões iniciais de Luanda.

Para acessar a página do dia 11 de julho de 2008, quando o post foi originalmente publicado, clique aqui.

No fim do texto, novas considerações.



LUANDA, DIA 3

Luanda é um congestionamento permanente de 4X4.

As leis de trânsito são ignoradas. Quanto maior e mais possante o carro e mais ousado o motorista, mais centímetros ele ganha nas ruas esburacadas da capital angolana.

A falta de sinais de trânsito complica. Os poucos semáforos nem sempre funcionam. Quando funcionam, percebe-se uma ligeira melhora no tráfego. O problema mesmo é a falta de bom senso dos motoristas.

Como todos querem chegar antes, acabam chegando depois.


Muitos motoristas têm por hábito bloquear os cruzamentos.

O engarrafamento espalha-se por vários quarteirões.

É comum perder mais de uma hora para percorrer uma distância de dois quilômetros.

E ainda temos as candongas, as vans, aqui chamadas de táxis.

Infestam a cidade e são o principal (único) meio de transporte a população. Estão sempre cheias, avançam sobre os carros, trafegam em via dupla em ruas de mão dupla.

Os carros da cidade estão sempre ralados, amassados, arranhados. E presos num congestionamento.

Depois de se chegar a um lugar, não há onde estacionar.

Quando há, o risco de furtos é enorme.

Os espelhos dos retrovisores são objeto de desejo dos criminosos. Quem não quiser ficar sem o apetrecho manda soldar duas pequenas barras metálicas no retrovisor para impedir que levem os espelhos. O mesmo acontece com as lanternas e faróis.

O seguro é caro. Poucos têm. O carro que aluguei com o Lipa (Carlos Lipa, aquele que tem o escritório na esquina da casa da mãe) não tem.

Travamos o seguinte diálogo:

EU: O carro tem seguro?

LIPA: (aquela risada quase gargalhada de alguém que lida com outro alguém ingênuo): Não, aqui quase nenhum carro tem.

EU: E se alguém bater no carro?
LIPA: Dá-se um jeito, dá-se um jeito - e desapareceu na esquina.

Lipa voltou 10 dias depois para receber as diárias do carro.

Contratei um motorista angolano. Para chegar onde estou, ele gasta 200 kwanzas (US$ 2,66) diariamente com a passagem da candonga.

Tem seis filhos, com idades entre seis meses e 19 anos. A primeira mulher morreu. Refere-se à atual como “companheira”. Há poucos dias descobriu que será avô.

Gente, gente, gente em tudo quanto é lugar. Vendem de tudo nas ruas. E muita gente parada, sentada no chão, nos meios fios, encostadas nas paredes das casas e prédios. Difícil saber o que fazem e o que esperam.

A riqueza do petróleo ainda não chegou para eles.


xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Pouco mudou nos últimos quase dois anos.

O trânsito continua infernal.

As pessoas continuam desrespeitando as regras de trânsito.

Os motoristas bloqueiam cruzamentos e as motos ignoram os semáforos na frente dos policiais, que nada fazem.

Os vizinhos continuam estacionando o carro na porta da garagem.

Como hoje de manhã, quando abrimos o portão e demos de cara com um dos carros do vizinho bloqueando totalmente nossa passagem.

A garagem dele estava liberada.

Para quem não acompanhou o raciocínio, vou repetir: o vizinho estacionou o carro na porta da nossa garagem e deixou a dele liberada.

Faz sentido?

Sim, claro.

Afinal, por que ele iria bloquear a entrada da garagem dele?

Faz todo o sentido.

Sobre os seguros, desde o ano passado o governo tornou o seguro obrigatório.

A maioria dos motoristas dirige sem seguro e é vítima permanente dos achaques da polícia.

E a riqueza do petróleo continua longe do angolano comum.

0 comentários: