O terceiro texto sobre as impressões iniciais de Luanda.
Para acessar a página do dia 11 de julho de 2008, quando o post foi originalmente publicado, clique aqui.
No fim do texto, novas considerações.
LUANDA, DIA 3
Luanda é um congestionamento permanente de 4X4.
As leis de trânsito são ignoradas. Quanto maior e mais possante o carro e mais ousado o motorista, mais centímetros ele ganha nas ruas esburacadas da capital angolana.
A falta de sinais de trânsito complica. Os poucos semáforos nem sempre funcionam. Quando funcionam, percebe-se uma ligeira melhora no tráfego. O problema mesmo é a falta de bom senso dos motoristas.
Como todos querem chegar antes, acabam chegando depois.
Muitos motoristas têm por hábito bloquear os cruzamentos.
O engarrafamento espalha-se por vários quarteirões.
É comum perder mais de uma hora para percorrer uma distância de dois quilômetros.
E ainda temos as candongas, as vans, aqui chamadas de táxis.
Infestam a cidade e são o principal (único) meio de transporte a população. Estão sempre cheias, avançam sobre os carros, trafegam em via dupla em ruas de mão dupla.
Os carros da cidade estão sempre ralados, amassados, arranhados. E presos num congestionamento.
Depois de se chegar a um lugar, não há onde estacionar.
Quando há, o risco de furtos é enorme.
Os espelhos dos retrovisores são objeto de desejo dos criminosos. Quem não quiser ficar sem o apetrecho manda soldar duas pequenas barras metálicas no retrovisor para impedir que levem os espelhos. O mesmo acontece com as lanternas e faróis.
O seguro é caro. Poucos têm. O carro que aluguei com o Lipa (Carlos Lipa, aquele que tem o escritório na esquina da casa da mãe) não tem.
Travamos o seguinte diálogo:
EU: O carro tem seguro?
LIPA: (aquela risada quase gargalhada de alguém que lida com outro alguém ingênuo): Não, aqui quase nenhum carro tem.
EU: E se alguém bater no carro?
LIPA: Dá-se um jeito, dá-se um jeito - e desapareceu na esquina.
Lipa voltou 10 dias depois para receber as diárias do carro.
Contratei um motorista angolano. Para chegar onde estou, ele gasta 200 kwanzas (US$ 2,66) diariamente com a passagem da candonga.
Tem seis filhos, com idades entre seis meses e 19 anos. A primeira mulher morreu. Refere-se à atual como “companheira”. Há poucos dias descobriu que será avô.
Gente, gente, gente em tudo quanto é lugar. Vendem de tudo nas ruas. E muita gente parada, sentada no chão, nos meios fios, encostadas nas paredes das casas e prédios. Difícil saber o que fazem e o que esperam.
A riqueza do petróleo ainda não chegou para eles.
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Pouco mudou nos últimos quase dois anos.
O trânsito continua infernal.
As pessoas continuam desrespeitando as regras de trânsito.
Os motoristas bloqueiam cruzamentos e as motos ignoram os semáforos na frente dos policiais, que nada fazem.
Os vizinhos continuam estacionando o carro na porta da garagem.
Como hoje de manhã, quando abrimos o portão e demos de cara com um dos carros do vizinho bloqueando totalmente nossa passagem.
A garagem dele estava liberada.
Para quem não acompanhou o raciocínio, vou repetir: o vizinho estacionou o carro na porta da nossa garagem e deixou a dele liberada.
Faz sentido?
Sim, claro.
Afinal, por que ele iria bloquear a entrada da garagem dele?
Faz todo o sentido.
Sobre os seguros, desde o ano passado o governo tornou o seguro obrigatório.
A maioria dos motoristas dirige sem seguro e é vítima permanente dos achaques da polícia.
E a riqueza do petróleo continua longe do angolano comum.
Rés-do-chão
2 horas atrás


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