domingo, 18 de abril de 2010

CABO VERDE, ESCRAVIDÃO, ROTAS COMERCIAIS E O CRIOLO

Hamilton Jair Fernandes é historiador cabo verdiano especializado em arqueologia e mestre em Gestão de Patrimônio.

Na entrevista a seguir, ele fala sobre escravidão e o idioma criolo.

PERGUNTA – Qual a importância deste lugar em que estamos para Cabo Verde?
Hamilton Jair Fernandes - Exatamente. Estou basicamente onde toda a história de Cabo Verde, tanto como país mas sobretudo como nação, surgiu, que é a rua da Banana, a rua que fica justamente à entrada da cidade para quem fazia na altura, mais concretamente a partir de 1460, 1462, a entrada ou reabastecimento na cidade da ribeira grande de santiago.

PERGUNTA – Essa foi a primeira rua construída pelos europeus na África?
Hamilton Jair Fernandes – Exatamente. Segundo as crônicas e algumas prospecções arqueológicas que fizemos pontualmente aqui nessas duas ruas, os fatos falam por si. Que é a primeira rua urbanizada, construída pelos europeus nos trópicos, particularmente aqui na cidade da ribeira grande. E de uma forma geral pode-se considerar como sendo a primeira rua urbanizada de cabo verde.

PERGUNTA – Quando os portugueses navegavam em busca de novas rotas comerciais, o que representou a chegada a Cabo Verde?
Hamilton Jair Fernandes –
O fato curioso é que, segundo a própria história de Portugal e a de Cabo Verde, como é óbvio não deixa de ser uma história desassociada, há uma questão que é importante, que é o fato de que os portugueses, na altura, não saíram propositadamente para descobrir aqui as ilhas de Cabo Verde. Como se sabe, o primeiro objetivo foi a descoberta das índias e, na altura, pela incapacidade limitada por algumas insuficiências ao nível científico e de navegabilidade, facilitou de uma certa forma a navegação costeira. Cabo Verde está a 500 km da costa ocidental africana, mais concretamente do Senegal, e isso facilitou muito a vinda aqui dos portugueses. Estamos a falar num período em que o mundo ocidental saiu à procura de novos mercados, quer para extração dos novos materiais, das matérias-primas, quer para a colocação dos seus produtos, dos seus derivados. E Cabo Verde, nesse particular, acabou por desempenhar um papel importante. Enquanto não estava muito longe de Portugal, também não estava muito perto de Portugal, o que facilitava por sua vez, enquanto sítio de armazenagem do produto que vinha da África com destino à Europa, facilitava e muito. E também na comunicação entre o poder administrativo aqui residente e o poder administrativo na metrópole. Estamos num período onde havia uma certa dificuldade por causa do tempo de viagem que demorava entre 2 e 3 meses. Isso facilitavade um lado mas dificultava de outro. Enquanto antiga Ribeira Grande, cidade velha atual, enquanto entreposto desse comércio e dessa comunicação entre a Europa e África num primeiro momento. Posteriormente viria entrar o continente americano, mais concretamente o Brasil e a zona sul dos Estados Unidos.

PERGUNTA – O que representou Cabo Verde depois de iniciada a colonização relacionado a entreposto. Era ponto de parada para quem partia para as américas e mais tarde também em relação ao tráfico de escravos?
HAMILTON JAIR FERNANDES –
Exatamente. Nesse particular então é mais curioso ainda. O fato de Cabo Verde funcionar como um entreposto não só para o reabastecimento dos navios que vinham aqui à procura de víveres para abastecerem durante as suas navegações não só com a costa africana, mas também com o caminho das índias...estamos a falar de grandes navegadores que aqui passaram, pela necessidade que tiveram de chegar a Cabo Verde. Caso de Vasco da Gama, do Pedro Álvares Cabral. Tiveram mesmo essa necessidade de se ancorarem aqui para se reabastecerem. Mas também há um outro fato importante de sublinhar, que é a questão de Cabo Verde, da Ribeira Grande, funcionar durante três séculos como entreposto do comércio de escravos. Ou seja, o escravo que parava aqui na Ribeira Grande tinha um preço diferente do escravo que saía diretamente da África para as outras paragens. Por causa da ladinização, um termo utilizado pelos historiadores para diferenciar o tratamento ou a domesticação da pessoa, nesse caso do escravo, que passava aqui por Cabo Verde, era batizado, era-lhe ensinado as atividades ou os afazeres domésticos. Não era o simples escravo que trabalhava no campo ou que trabalhava na produção agrícola aqui na cidade. Mas tambem tinham esse saber fazer domestico. Ou seja, trabalhavam no interior das casas. Muitas vezes muitas mulheres enquanto amas, que amamentavam os miúdos.

PERGUNTA - Era um escravo com valor agregado.
HAMILTON –
Exatamente. Pelo fato de a eles ser ensinado algo de rudimentar, não só desse saber fazer doméstico, mas também um outro aspecto importante, que era o aspecto religioso. Que também não estava disassociado de todo esse fenômeno do descobrimento europeu.

REPÓRTER - Isso que o senhor acabou de falar, o fato de os escravos estarem dentro das casas dos europeus que vinham para cá, de alguma forma facilitou a miscigenação? Quando se observa Cabo Verde em relação a outros países africanos, o tom da pele é diferente em relação a Angola, São Tomé e Moçambique. Isso também aconteceu?
HAMILTON –
Sim. Se calhar essa poderia ser entendida numa leitura mais otimista como a porta de entrada para essa miscigenação. Sobretudo a nível, como acabou de dizer e bem, da fisionomia do cabo verdiano face às outras colônias que estão sediadas no continente. Porque o próprio cabo verdiano de hoje, se formos reparar bem, a diferença de uma ilha em relação à outra, vê-se que os aspectos físicos diferem e muito. Por quê? Podemos encontrar ilhas em que a tonalidade da pele do cabo verdiano é mais clara face às outras ilhas. E isso precisamente por causa dessa mistura biológica e genética. Daí que tudo originou daqui, da Cidade Velha.

REPÓRTER – E isso de alguma forma provocou preconceito de outros países africanos por ter se miscigenado mais?
HAMILTON -
Se calhar, antes de responder a essa questão, queria também fazer uma pequena ressalva que é a questão do estatuto que o escravo que passava aqui por Cabo Verde tinha em relação a outro. Que é essa questão ladinização. Padre Antônio Vieira, por exemplo, numa das crônicas que ele fez na passagem aqui à ilha de Santiago, mais concretamente aqui à Ribeira Grande de Santiago, num certo momento fala sobre a evangelização que era feita pelos frades ou pelos padres negros que eram formados aqui na ilha. Para facilitar a comunicação entre o colono e o colonizado. E muitos deles pregavam, não só aqui na cidade mas também faziam missões religiosas no interior da ilha. Daí pode-se ver o valor acrescentado que o escravo daqui, que passava aqui por Ribeira Grande, não necessariamente ser natural da Ribeira Grande, mas que passava aqui por Ribeira Grande. Em relação à sua pergunta: a questão da emancipação no período antes da independência não sou partidário dessa afirmação, que isso dificultou o cabo verdiano na sua integração em relação a outros países que passaram no mesmo trajetória histórica. Mas muito pelo contrário. Vejamos uma coisa: após a abolição da escravatura e assunção de cabo verdiano da questão identitária, do homem cabo verdiano, independentemente de ser o homem cabo verdiano é produto de uma miscigenação ou não, o fato é que a partir do momento da abolição da escravatura, o cabo verdiano se assumiu como tal. Desde aspectos etnográficos, antropológicos e sociais, sobretudo, mas um outro aspecto também que está intimamente ligado é a questão cultural, que é a questão de pertença à África. Porque todo o processo da luta colonial, da luta contra o opressor nasceu dessa tomada de consciência do cabo verdiano. Temos que nos unir aos outros povos que também passaram ou que também na altura estavam no mesmo processo de colonização. E isso é um fato que cada vez mais nos faz unir a África continente.

REPÓRTER – Em relação ao criolo: o início foi aqui na Cidade Velha?
HAMILTON –
Em relação ao criolo que se fala aqui em Cabo Verde há uma questão simples, que é vermos a história e todos os aspectos sociais, culturais e antropológicos a ela relacionados. O criolo que se fala aqui em Cabo Verde surgiu da necessidade de comunicação entre os europeus e os africanos. Mas sobretudo entre os africanos. Porque se formos ver as origens, geograficamente, do povo cabo verdiano face ao continente africano, há uma mistura de vários povos e várias etnias africanas. E claro, daí surgiu o “pidim”que é a primeira forma de comunicação rudimentar surgida aqui em Cabo Verde, tambem considerada como o protocriolo. Mas acima de tudo o importante é vermos que, com essa necessidade, haveria de comunicar-se de alguma forma. Nasceu esse criolo cabo verdiano. Que justamente aqui onde estamos na Ribeira Grande de Santiago é que esse criolosurgiu. Pelas necessidades que eu acabei de mencionar. Mas, claro, a questão das variantes que ainda hoje mais do que nunca está-se a discutir aqui em Cabo Verde. A variante do barlavento, a variante do sotavento, qual delas é que se deve ser assumida ou veiculada nos meios, sobretudo nos meios acadêmicos? É essa a questão de fundo. Qual o criolo deve-se lecionar nas universidades? Qual o criolo cabo verdiano deve ser introduzida na questão administrativa e legal aqui em Cabo Verde.

PERGUNTA - Qual o futuro do criolo? Ele substituirá o português em algum momento? Será paralelo? O que se imagina?
HAMILTON –
Não (substituirá). Neste momento, infelizmente quanto a mim, temos duas correntes em relação à oficialização ou à materialização do criolo nos circuitos formais. Como é óbvio, como toda língua, é necessário a sua normalização. E para a sua normalização, terá que se fazer obrigatoriamente pelos materiais didáticos ou pedagógicos. Ou seja: temos já gramáticas em criolo. Publicações científicas e não só em criolo. Ou seja, essa normalização já iniciou a partir do Alupec, que é o alfabeto unificado do criolo. Desde 1998 começou-se a sua introdução de uma forma experimental nas escolas. Mas claro: qual é o criolo que se vai falar, qual o criolo que se vai adotar? Quanto a mim, isto é um aspecto irrisório porque como todas as outras línguas, para assumir-se ou oficializar-se uma língua como tal, há que ter em conta o aspecto cultural e histórico. Onde nasceu o criolo aqui em Cabo Verde? Como é óbvio, e não sendo bairrista, tem que ser o criolo que surgiu aqui na Ribeira Grande de Santiago. Independentemente da variante porque nenhuma das ilhas ou pessoas de nenhuma dessas ilhas está obrigada a falar. Assim como o criolo em nenhuma circunstância virá a substituir o português, como é óbvio. São duas línguas que, a exemplo de outros países, tem que se conjugar e tem que se assumir como sendo o caráter bilinguístico que o cabo verdiano tem de levar as duas línguas ao mesmo tempo. Como é óbvio, estamos num processo de normalização e materialização do criolo a nível acadêmico. E vai ter o seu momento que tem que ser assumido como tal e que deverá ser metido na praça pública para sua discussão aberta e descomplexada. Porque, como sabemos, já existem diplomas legais sobre a oficialização do criolo. A questão está acima de tudo na questão regional. É a opinião que tenho sobre a questão. Se há que se assumir um criolo ou uma variante do criolo cabo verdiano, há questões sociais. A ilha de Santiago, por exemplo, é a maior ilha de Cabo Verde. O que em termos demográficos, justifica, como é óbvio, a assunção do criolo de sotavento, por exemplo. Temos a questão cultural como eu havia dito anteriormente. A questão histórica. Por ser o berço da nação cabo verdiana. E a língua, como sendo um aspecto cultural e disassociada da questão da nação, acho que é momento de sentarmos e assumirmos as coisas assim como são.

Um comentário:

Marilia disse...

Muito interessante esta entrevista! Ainda não tinha lido!
Sempre que preciso de algum material, dou um pulo aqui!
Abraço,
Marília