domingo, 31 de janeiro de 2010

A MISÉRIA DE CABINDA É A MISÉRIA DE ANGOLA

Depois do atentado das Flec contra o comboio que levava a seleção do Togo para Cabinda, a imprensa internacional passou a publicar reportagens sobre as condições de vida na província.

Segundo algumas reportagens, as Flec exigem que mais recursos do petróleo sejam investidos em Cabinda.

As Flec alegam que, pela quantidade de petróleo extraído da região, deveria haver mais investimentos no enclave.

Argumentam que a população vive na miséria.

Provavelmente os argumentos são válidos, apesar de não justificarem o ataque.

Mas quem conhece Angola sabe que os problemas não são apenas esses e nem estão apenas em Cabinda.

O angolano médio vive na miséria.

Vive nos musseques sem água, sem luz, sem coleta de lixo, sem transporte, sem serviço de saúde pública, sem escola.

Nos hospitais públicos, não é raro o angolano ser obrigado a subornar do segurança da portaria aos enfermeiros, médicos e técnicos para obter qualquer tipo de serviço. É preciso subornar o porteiro para conseguir fazer uma visita a um parente internado.

Nas escolas públicas, não é raro os pais precisarem subornar os professores para que eles dêem aula aos filhos.

Nos serviços públicos em geral, não é raro o angolano ter que subornar, dar uma gasosa, um agradinho para se conseguir qualquer coisa.

O glorioso aeroporto 4 de Fevereiro agora parece glorioso mesmo.

O desembarque está bonito, iluminado, com balcões largos para receber o estrangeiro.

Os formulários de saúde que antes precisavam ser disputados a tapa no saguão da imigração agora estão disponíveis em balcões onde podem ser preenchidos tranquilamente.

Mas depois de receber o carimbo no passaporte e deixar o balcão da imigração, lá tem o estrangeiro que mostrar de novo o passaporte para outro funcionário angolano.

É como se, nos segundos entre receber o carimbo no passaporte e encontrar o funcionário angolano seguinte, houvesse alguma possibilidade de se falsificar o visto ou praticar alguma outra irregularidade.

O funcionário angolano pega o passaporte e começa a folheá-lo em busca do visto e do carimbo.

Compara a foto no passaporte com o rosto do portador.

Ainda fico intrigado com esse procedimento.

Resquício da guerra civil, talvez.

Ou uma forma de criar mais empregos para os angolanos despreparados para outras funções.

Ou, então, uma forma de fiscalizar o trabalho do agente da imigração que talvez tenha falhado na tarefa de conferir o passaporte.

Talvez não tenha notado que o visto estava errado.

Talvez tenha carimbado o passaporte indevidamente.

Depois de recuperar a bagagem, os passageiros teriam a opção de escolher entre duas saídas: canal verde, nada a declarar. Ou o canal vermelho, com bens e mercadorias a declarar.

Mas outros funcionários angolanos fazem uma barreira na saída e obrigam todos os passageiros a passar pelo canal vermelho.

Angolanos e estrangeiros.

Todos são culpados até prova em contrário.

O preço pela falha nos serviços de inteligência do governo angolano, que resultaram no ataque à seleção do Togo em Cabinda, será rateado entre todos os que precisarem pisar o solo angolano.

O estado policial ficará mais evidente e mais forte.

A população continuará desinformada pelas publicações oficiais, que só divulgam notícias positivas ao governo.

Avaliações e análises de entidades internacionais sobre o país são divulgadas pela metade.

Os elogios são publicados.

As críticas ignoradas.

A realização do CAN era a oportunidade de Angola mostrar ao mundo que o país está em paz, que os angolanos são capazes de realizar um evento internacional em segurança.

Angola sai do CAN com o orgulho ferido.

Eu, de fato, lamento o atentado.

Angola e os angolanos não merecem mais a guerra.

O atentado, no entanto, é um alerta para que haja menos arrogância, menos empáfia.

É um alerta para que haja mais humildade.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O MEDO DO MUNDIAL NA ÁFRICA DO SUL

Comentário atribuído ao presidente do Bayer Munique, Uli Hoennes:

"Entregar o mundial de 2010 à África do Sul foi um erro grande. Eu não vou lá. Blatter queria organizar um evento mundial na África, mas acredito sinceramente que ele já está arrependido."

Depois de ter viajado um pouco pela África no último ano e meio, só tenho a lamentar a declaração do presidente do Bayer Munique: covarde e desinformada.

Gostaria de saber a opinião dele sobre a realização de qualquer evento na Europa e nos Estados Unidos, países em que também acontecem atentados.

Clique aqui e leia a notícia e os comentários dos leitores.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

EM DARWIN

A caminho de Díli, fiz uma escala de um dia em Darwin, na Austrália.

Nas ruas, fiquei impressionado com a quantidade de aborígenes-mendigos.

Numa que me pareceu ser a principal rua de comércio da cidade, vejo que a maior atração turística da região são os crocodilos.

Há avisos de tours para todos os lados.

E lojas que oferecem artigos originais com todas as partes de crocodilos imagináveis.

Como eu estava de férias, havia deixado a barba crescer.

Procuro um barbeiro.

Passo por uns dois ou três salões de beleza que me recuso a entrar.

Numa rua transversal, vejo, do outro lado da rua, o nome de um salão.

Sou atraído pela placa que diz "sem marcação de horário".

Quando vou abrir a porta, aparece um sujeito trazendo dois copos daqueles de papelão com café e capuccino.

Abro a porta para ele entrar e descubro que ele é o barbeiro.

Lá dentro, uma moça termina de cortar o cabelo de um homem.

O barbeiro que chegou junto comigo, que depois me conta ser dono do salão, indica a cadeira para eu sentar.

Ele conta que já teve sete salões na cidade, mas agora está com apenas três porque decidiu aproveitar a vida.

Antes era obrigado a trabalhar todos os dias.

Agora já comprou os ingressos para a Copa do Mundo na África do Sul e quer ver a copa e as Olimpíadas no Brasil.

Quando ele termina de cortar o cabelo e peço para fazer a barba, ele diz que vai apenas passar a máquina.

Segundo ele, as seguradoras australiadas não cobrem mais eventuais danos causados por uma barba mal-feita.

O barbeiro relata casos de pessoas que processaram os salões porque, depois de sofrerem um corte no rosto ou no pescoço, alegaram ter contraído aids, alguns tipos de hepatite e outras doenças.

Encerrada a operação, tento achar um restaurante para comer.

Há vários.

A maioria numa mistura de bar e lugar de jogos eletrônicos.

Às 11h da manhã já há grupos de pessoas tatuadas bebendo jarros de cerveja.

Pouco provável que sejam trabalhadores na hora do almoço.

Mais parecem vagabundos e desempregados que se reúnem para gastar o seguro-desemprego.

Depois de percorrer a rua umas duas vezes nos dois sentidos, entro num restaurante supostamente italiano.

A garçonete pouco simpática me entrega o cardápio e diz que, depois de escolher o prato, devo me dirigir ao lugar em que ela fica para fazer o pedido.

Ao lado da minha mesa há uma outra mesinha com um grande filtro com água.

Com o seguinte aviso aos gloriosos clientes que não resisti e copiei num guardanapo.

Ei-lo:

"Esta vasilha de água está aqui para sua conveniência. Só vamos reabastecê-la quando tivermos tempo. Só colocaremos gelo se tivermos gelo em excesso disponível. Por favor, não peça gelo aos funcionários. Se você quiser mas não houver água disponível no recipiente, por favor, peça e pague no caixa por uma garrafa com água."

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

JOSEFA KAIBETE


Josefa Kaibete tem 45 anos, oito filhos e só estudou até a quarta série.

O marido morreu em 2005.

Em 2008, Josefa foi selecionada para fazer um curso de formação política pela Unifem, a agência da ONU para as mulheres.

Em inglês, o programa se chama Women in Policitcs e tem o objetivo de treinar mulheres para se tornarem líderes e participarem do processo político em seus bairros, cidades e países.

Em Timor Leste, a lei garante 25% das vagas da Assembleia Nacional para as mulheres.

Uma em cada quatro cadeiras são para elas.

Dos 65 assentos, 19 pertencem a deputadas.

Josefa já se candidatou ao cargo de chefe do suku, que no Brasil poderia corresponder a uma região da cidade.

Perdeu, mas continua se preparando para a próxima eleição.

Depois, pretende se candidatar à Câmara de Vereadores e, na sequência, à Assembleia Nacional.

Num país em que a violência doméstica é um dos principais problemas (mais de 60% dos casos registrados na polícia são de agressões e abusos sexuais contra mulheres e crianças praticadas pelos maridos, pais, tios, irmãos mais velhos), a presença das mulheres no parlamento é um passo importante para alterar essa triste realidade.

PERTO DO FIM

Nossa temporada em África aproxima-se do fim.

Mais alguns poucos meses e levantamos acampamento.

Vamos sentir saudades.

sábado, 23 de janeiro de 2010

MELCHIOR FERNANDES E O GALAXY


Conheci o Melchior Fernandes hoje.

Ele tem 26 anos e é o vocalista do grupo timorense Galaxy.

Suas músicas estão no My Space e no Youtube.

Conversamos bastante hoje à tarde.

É incrível imaginar como os 24 anos da ocupação indonésia provocaram um vazio cultural em Timor Leste.

Durante 24 anos não se desenvolveu a música, a pintura, a literatura.

Só agora começam a surgir bandas, grupos de teatro.

Jovens começam a estudar pintura, escrevem roteiros de filmes e programas de televisão.

Melchior e o Galaxy são a primeira geração de artistas do Timor Leste independente.


A independência aconteceu há apenas sete anos.

É emocionante estar num país tão jovem e ter a oportunidade de observar o surgimento de coisas incríveis.

É impossível tentar entender o que acontece em Timor Leste a partir da nossa perspectiva.

É preciso deixar todas as referências de lado.

É preciso esquecer tudo o que sabemos.

É preciso esquecer tudo o que achamos que sabemos.

Melchior cantou, em tétum, uma música sobre o conflito de 2006.




quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

TRÊS HISTÓRIAS TIMORENSES

Carolina da Costa, 35 anos, casada, cinco filhos.

Pegou um empréstimo de US$ 50 numa empresa de microcrédito.

Comprou mais produtos para o mercadinho que funciona na frente da casa dela.

Agora tomou outro empréstimo de US$ 350 para reformar e ampliar o mercadinho.

Natália Soares, 41 anos, casada, 10 filhos (nove vivos).

Cabeleireira, tomou um empréstimo de US$ 500 numa empresa de microcrédito para comprar mais produtos e equipamentos para o salão de beleza.

Deveria pagar prestações de US$ 155 até liquidar o empréstimo, mas resolveu tudo em dois meses.

Agora, tomou outro empréstimo de US$ 1.000.

Vai ampliar o salão e contratar duas funcionárias.

Graças ao microcrédito, Natália virou microempresária e está criando empregos em Díli.


Domingas Janila da Silva, 25 anos, casada.

Pegou empréstimo de US$ 500 numa empresa de microcrédito.

Usou metade do dinheiro para comprar mercadorias e guardou o resto para capital de giro.

Tomou um segundo empréstimo de US$ 1.000.

Com o dinheiro, vai deixar de pagar aluguel e construir um restaurante próprio num terreno da família.

Três histórias de sucesso em Díli.

UMA GAROTA EM DÍLI


terça-feira, 19 de janeiro de 2010

OS DRAGÕES DA INDEPENDÊNCIA TIMORENSES

A primeira imagem que me veio à mente foi a dos Dragões da Independência, o batalhão do Exército brasileiro que faz a guarda presidencial.

O palácio presidencial em Díli também tem seus dragões, com roupas tradicionais timorenses.

O detalhe que me chamou a atenção foram os tênis e meias Nike.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

NO TIMOR LESTE

Vista do Cristo Rei, num dos extremos de Díli.

Crianças com roupas tradicionais.

Cemitério de Santa Cruz, onde ocorreu o massacre de 1991 que alertou o mundo para as atrocidades cometidas em Timor Leste pelo governo da Indonésia.

O presidente Ramos Horta e o primeiro-ministro Xanana Gusmão.

Cartaz divulgando o Carnaval em Díli.

Crianças na ponte Comoro.

Crianças no leito seco do rio Comoro.
Praia em Liquiça, cidade a 40 minutos de Díli.

Igreja de Liquiçá, onde soldados indonésios mataram várias pessoas, inclusive padres.
Criança passa em frente a igreja em Liquiçá.
Mercado popular em Díli.

Vendedores de carne em mercado em Díli.

Populares em Díli.
Mercado em Díli.
Adolescentes apresentam dança tradicional indonésia em Díli.

DOS TIMORENSES

Depois de cinco dias em Díli, fico com uma boa impressão dos timorenses.

São bastante simpáticos.

Nas ruas, cumprimentam e não recusam uma conversa.

Até agora, ninguém me pediu dinheiro.

A criminalidade no país (assaltos, arrombamentos e similares) praticamente não existe.

Nos mercados, é comum os donos das bancas deixarem os produtos em exposição de um dia para o outro.

Ninguém mexe em nada.

Muita gente deixa roupa para secar no varal na varanda de casa.

Ninguém mexe.

domingo, 17 de janeiro de 2010

CENAS TIMORENSES

Da esquerda para a direita:

1) António Soares de Deus, 24 anos, faz faculdades de Letras com especialização em inglês. Quer ser professor;

2) Elias Noronha, 23 anos, estuda Relações Internacionais. Quer ser policial para ajudar a defender o Timor Leste;

3) Cosme dos Santos Noronha, 23 anos, estuda Biologia. Quer ser professor.

Cosme e Elias puxaram conversa comigo hoje quando filmávamos no mercado de Taibisi, em Díli.

António e Elias entendem apenas algumas palavras em português.

Falam menos ainda.

Cosme consegue pronunciar algumas frases em português, mas entende com muita dificuldade as perguntas e mal consegue articular uma resposta em português.

Todos falam tétum, o idioma nacional, e bahasa, a língua da Indonésia.

António e Elias falam inglês, mas dependendo da escolha das palavras feita pelo interlocutor, têm dificuldade para entender.

Os três são produto direto da confusão de línguas reinante em Timor Leste desde sempre.

Até 1975, todos falavam tétum e português.

Com a Revolução dos Cravos, os portugueses abandonaram as colônias de forma atabalhoada.

Timor Leste declarou independência unilateral em 1975.

Dias depois, a Indonésia invadiu e ocupou Timor Leste durante 24 anos.

Baniu o português.

Assassinou cerca de 300 mil pessoas.

Cerca de um terço da população.

O bahasa virou a língua oficial.

Quem fosse flagrado falando português podia ser repreendido, apanhar, ser preso e até morto.

Dependia da hora, do dia e do humor do oficial indonésio de plantão.

Em 2002, quando Timor Leste tornou-se de fato um país independente reconhecido pelo mundo, os governantes optaram pelo português como o idioma oficial.

Mas Timor Leste é uma babel.

Apenas quem já sabia falar português antes de 1975 ainda consegue se expressar em português.

Nos 24 anos seguintes, só se podia falar o bahasa.

Depois de 2002, o português e o tétum tornam-se línguas oficiais, mas é difícil encontrar alguém que entenda português nas ruas de Díli ou de qualquer outra cidade do país.

Alguém que fale e entenda português fluentemente é ainda mais difícil.

E muita gente se recusa a aprender português.

Acham que não vale a pena perder tempo estudando português quando se vive num pequeno país cravado entre a Austrália e a Indonésia, em que o inglês e o bahasa predominam.

Além disso, o inglês é a língua internacional do momento.

A impressão é que há mais timorenses falando inglês do que português.

É estranho encontrar gente com nomes como Ricardo da Costa e Manuel Noronha que não entendem português, mas são fluentes no inglês.

Na sexta-feira estive na Universidade de Timor Leste.

Visitei um curso de Medicina.

O professor é cubano.

As aulas são em espanhol.

No primeiro ano do curso, os alunos têm, entre as disciplinas obrigatórias, o espanhol.

Os universitários timorenses falam espanhol melhor do que o português.

É visível o esforço que fazem para conseguir se expressar em português.

Falam devagar, buscando a palavra certa.

É surpreendente como conseguiram aprender espanhol tão rápido para ter aulas de medicina.

Em casa, com parentes e amigos, só falam em tétum.

Ou bahasa.

Os mais jovens entendem o português.

E são fascinados na novela Sinhá Moça, da TV Globo, que é exibida no televisão pública de Timor Leste.

E assim, Timor Leste vai construindo sua nacionalidade.

TIMOR LESTE, 10 ANOS DEPOIS DA INDEPENDÊNCIA


O vídeo acima é parte do projeto Pulitzer Center on Crisis Reporting's Fragile States.

ANGOLANO DETIDO EM FRANKFURT COM DIAMANTE PARA COMPRAR CARROS EM PORTUGAL

Notícia da SIC:

"Um angolano foi detido esta quinta-feira no aeroporto de Frankfurt, Alemanha, por ter na sua posse um diamante com valor aproximado de 2,5 milhões de euros. O homem explicou que vinha a Portugal comprar carros com o diamante.

À chegada ao aeroporto de Frankfurt proveniente da Namíbia, o angolano de 38 anos foi interpelado pela polícia que detectou que o visto namibiano era falso. Foi então que foi descoberto o diamante que o homem alegou valer apenas 50 mil euros. Com a pedra preciosa planeava vir a Portugal comprar carros.

A alfândega alemã efectuou uma avaliação e determinou que o diamante – uma pedra com três centímetros de altura e de largura – valia, pelo menos, 50 vezes mais: 2,5 milhões de euros.

O diamante ficou apreendido, o homem está detido, acusado de vários delitos, entre os quais, violação do tratado internacional que proíbe o comércio de pedras preciosas provenientes de zonas de conflitos, tal como é Angola, disse à AFP o porta-voz da Alfândega alemã, Hans-Jürgen Schmidt.

É também acusado de ter tentado escapar ao pagamento das taxas aduaneiras, no valor de 500 mil euros.

"O diamante será eventualmente confiscado e confiado ao Governo alemão", disse o porta-voz.

O angolano deverá ser presente ainda hoje a um juiz. De acordo com o porta-voz, "não deverá ser solto. Ou ficará detido ou será extraditado para Angola", garantiu Hans-Jürgen Schmidt."

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

SEBASTIÃO GOMES E O MASSACRE DE SANTA CRUZ


No dia 28 de outubro de 1991, pouco mais de um mês depois de completar 18 anos, o estudante Sebastião Gomes foi morto por militares da Indonésia dentro da igreja de Motael, em Díli.

Sebastião participava do movimento estudantil que lutava pela libertação de Timor Leste, ocupado pela Indonésia desde 1975.

Quinze dias depois da morte de Sebastião, no dia 12 de novembro, cerca de três mil pessoas fizeram uma passeata da igreja até o cemitério de Santa Cruz para homenagear Sebastião.

O ato havia sido organizado por líderes estudantis.

Durante a passeata, bandeiras dos movimentos clandestinos de libertação foram exibidas e palavras de ordem gritadas.

Quando a multidão chegou ao cemitério, soldados da Indonésia aguardavam do outro lado da rua.

Esperaram as pessoas entrarem e abriram fogo.

Desesperada, a multidão correu para o fundo do cemitério.

Tropeçavam nos túmulos, pisavam umas sobre as outras.

Os que conseguiram se salvar, pularam os muros laterais e dos fundos do cemitério.

Quem ficou pelo chão levou tiros, facadas e foi espancado

Pelo menos 271 pessoas morreram.

O episódio ficou conhecido como o Massacre de Santa Cruz e serviu para fortalecer o movimento de libertação e a pressão internacional contra a ocupação indonésia do Timor Leste.

Algo que só aconteceu 11 anos depois.

Outros massacres vieram.

Quando os timorenses votaram pela independência num plebiscito realizado em 1999, soldados indonésios queimaram cerca de 80% de Díli.

Entre 1975 e 2002, quando Timor Leste finalmente se tornou independente, os soldados indonésios mataram entre 200 mil e 300 mil timorenses.

Cerca de um terço da população do país, que hoje está em torno de um milhão de pessoas.

Hoje fui ao cemitério e fiz a foto do túmulo do Sebastião que abre o post.

O cemitério é pequeno e os túmulos são grudados uns nos outros.

Quase não há espaço para caminhar entre as sepulturas.

O calor e a umidade deixaram o clima ainda mais pesado.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

TCHILOLI EM SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE

Reportagem da TV Brasil sobre o tchiloli, peça de teatro levada pelos portugueses para São Tomé e Príncipe no tempo da colônia.

JOANESBURGO – SIDNEY – DARWIN - DÍLI

Estou no aeroporto de Sidney esperando a conexão para Darwin.

De lá, sigo para Díli.

O voo desde Joanesburgo durou 12 desconfortáveis horas.

Consegui assistir a um trecho do filme Distrito 9 antes de cair no pseudo-sono.

Gostei do pouco que vi, mas terei que ver de novo.

Em Joanesburgo, as vozes na minha cabeça me mandaram comprar o livro Invictus, de John Carlin.

O título anterior era Playing the Enemy: Nelson Mandela and the game that made a Nation.

O livro acabou de virar um filme de Clint Eastwood com Morgan Freeman no papel de Mandela e Matt Damon no papel do capitão do time de rúgbi.

Se eu conseguir assistir ao filme em Joanesburgo, no retorno da viagem, faço um post.

Quero ver que tipo de público na África do Sul vai ao cinema ver esta história.

Enfim: uma vez em território australiano, posso dizer que nunca estive tão longe de casa.

O diário esteve um pouco parado desde o fim do ano por conta de um descanso merecido fora de Angola.

Também fiquei sem acesso à internet durante vários dias.

Eu estava na África do Sul quando aconteceu o atentado contra a seleção do Togo em Cabinda.

Recebi alguns pedidos para escrever sobre o assunto, mas não sei se terei muito mais a acrescentar em relação ao que a imprensa já divulgou.

Principalmente porque eu estou fora de Angola e não conversei com ninguém a respeito.

De qualquer forma, farei um post a respeito em breve.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010