terça-feira, 8 de março de 2011

TV BRASIL SEM CORRESPONDENTE NA ÁFRICA

No final de fevereiro, o jornalista Eduardo Castro decidiu interromper o contrato como correspondente da TV Brasil na África.

A TV Brasil foi a primeira emissora a enviar um correspondente para a África, em 2008.

Em seguida foram Record e Globo, de olho principalmente na cobertura da Copa do Mundo.

Terminada a Copa, as duas emissoras privadas fecharam os escritórios na África do Sul.

Com a decisão de Eduardo de deixar a emissora, a TV Brasil também deixou de ter um correspondente na África.

Abaixo, transcrevo o texto de despedida do Eduardo Castro publicado no blog ElefanteNews, mantido por ele a partir de Moçambique.


Prezados,
Em 2007, deixei a Bandeirantes – depois de 13 anos – para saltar na criação da TV Brasil e o fortalecimento da comunicação pública no país. Ouvi que era um absurdo trocar certo pelo duvidoso, e outras recomendações de cuidado – além de palavras de puro espanto. Também ouvi insinuações – afirmações até – de que tinha arrumado uma “boquinha”.
Aprendi como nunca, apanhei como nunca, mas não me arrependo. Trabalhei o mesmo de sempre, ganhei um pouco menos (melhor que alguns e pior que muitos), mas me senti realizando algo importante, participando de algo que faz diferença.
Quatro anos depois, sinto isso de novo – e, já sei, vou ouvir muito outra vez. Saio da EBC e fico aqui na África para ajudar a construir a comunicação no continente do futuro. Irei trabalhar na televisão aqui de Moçambique, um país que é mais novo que eu. Pouca coisa poderia, neste momento, ser mais estimulante.
Na EBC, valeu cada minuto. Vi o Estado por dentro, desfiz meus próprios mitos e preconceitos. Vi gente séria, que luta com e contra os burocratas; burocratas sérios, que lutam contra regras que partem do preceito de que todo mundo é ladrão. Vi que sempre falta dinheiro – sim, no Estado brasileiro falta dinheiro, e não sobra, como muitos querem que você pense.
Mas também vi gente picareta e vagabunda, que acha que não precisa trabalhar porque passou em concurso ou é amigo de alguém; gente que, se ganha um pouquinho de poder, estufa o peito, engrossa a voz e só faz bobagem. Gente que quer servir-se do Estado, e não o contrário. Conheci regras que, pretensamente, serviriam para preservar o dinheiro público, mas só criam mais gastos, acomodam as pessoas e atrasam o país. Lutei contra eles; acho que nos livramos de alguns e algumas.
Fui alvo e vítima de maledicência, incompreensão e inveja – muito gerada por informações truncadas, erradas ou simplesmente falsas. Parte da vida: quem sai na chuva se queima mesmo, diria Vicente Mateus. Quem me conhece, conhece. Já quem me mede pela sua própria régua tem poucas chances de acertar o tamanho.
Também conheci melhor o mundo dos que tentam se comunicar e não têm um espaço para se manifestar. Nunca tinha sentido isso tão de perto. A tal liberdaaaade é para poucos e, se depender de vários destes poucos, será para cada vez menos. Espero ter ajudado a melhorar esse quadro. Levo o que aprendi comigo, para onde for trabalhar a partir de agora.
Na EBC, deixo amigos e alguma coisa feita – lá e cá. Tenho orgulho de ter participado da criação da empresa desde o zero. Vi por dentro como tramitam as leis, como é o funcionamento da máquina pública. Vi como a imprensa se informa mal e chuta miseravelmente a partir do pouco que se digna a (ou consegue, porque há os que realmente tentam) apurar.
Não deu pra fazer tudo – longe disso. E fiz besteira também. As que detectei, tentei consertar. Algumas deixei para trás sem notar. Consertem, por favor.
Aqui, na África, fiz mais de 300 reportagens para a Agência, e mais de 100 para a TV, participações diárias e ao vivo para as rádios. Fui a 9 países, mas falei de dezenas de vários outros, com ajuda das agências, telefone, Skype e assemelhados. Cobri Copa do Mundo (a terceira), viagem presidencial, revolta popular – aqui e no norte do continente (com queda de dois ditadores inclusive), Fórum Social Mundial, e até a criação de um novo país -o Sudão do Sul.
Sem falar no dia a dia, que inclui fome, saúde precária, pobreza extrema. Mas também crescimento, melhora de quadro e busca por soluções. Aqui, em Moçambique, se estuda a sério a vacina anti-malária. Está mais perto do que qualquer outro lugar. Contar isso foi uma grande satisfação.
A África deixou de só sobreviver dia a dia; começa a poder pensar no futuro. Claro que ainda não é para todos. Mas está começando. Só ver isso de perto já estava interessante. Participar disso, minimamente que seja, será gratificante.
Nos vemos aí. Ou por aqui. Ou, certamente, por aí.

3 comentários:

Sanflosi disse...

Junior:

Só faço questão de deixar claro que a decisão de sair foi minha, por razões pessoais.

Ao contrário do que a nossa sempre solerte imprensa fez circular, em nenhum momento o contrato foi interrompido por iniciativa da EBC, nem nunca sequer houve qualquer conversa sobre isso.

Abs,
EC

CARLOS ALBERTO JR. disse...

Edu, foi deixar isso mais claro no post.
abs

Juliana Medeiros disse...

Uma pena Eduardo, espero vê-lo em outras paradas. Vc é um exemplo de que dá p/viver do jornalismo de forma ética e c/competência. Parabéns!