sábado, 29 de janeiro de 2011

ALGUNS LIVROS SOBRE A ÁFRICA


Dicas recebidas de um amigo.



“We wish to inform you that tomorrow we will be killed with our families”, de Phillip Gourevitch: o melhor relato do genocídio, apesar de o autor ser um pouco condescendente demais para o meu gosto com Paul Kagame, o general tutsi e atual presidente, cujo exército de rebeldes parou a mortandade

“Shake Hands with the Devil”, de Romeo Dallaire: memórias do general canadense que chefiava a missão da ONU


“The State of Africa”, de Martin Meredith: dividindo os capítulos por países, dá um panorama muito bom dos primeiros 50 anos da independência africana (1957-2007).

“The Shackled Continent”, de Robert Guest: é uma leitura liberal dos problemas africanos. Afinal, o autor foi o correspondente da revista “The Economist” na África por muito tempo. Tem excelentes histórias. O capítulo em que ele acompanha o trajeto de um caminhão de entrega de bebidas pelo interior de Camarões é imperdível.

“Untapped: The Scramble for African Oil”, de John Ghazvinian: é sobre o petróleo na África, que alguns acham ser a grande maldição do continente. O autor visitou vários países produtores e conta suas experiências, em ritmo de diário de viagem, de forma didática e divertida.

“Thabo Mbeki, the Dream Deferred”, de Mark Gevisser: biografia do presidente sul-africano, um catatau de 800 páginas que mostra a trajetória de um dos grandes líderes anti-apartheid, que infelizmente manchou sua reputação com as bobagens que falou sobre a Aids. Esse livro foi lançado na África do Sul e ainda não entrou no catálogo da Amazon (espera-se que isso ocorra em breve).

“Long Walk to Freedom”, de Nelson Mandela: o já clássico relato autobiográfico do ícone (este deve ter em português).

“Dinner with Mugabe”, de Heidi Holland: recém-lançado na África do Sul, mostra as entrevistas da autora, uma jornalista sul-africana, com pessoas da intimidade do ditador do Zimbábue (como seu irmão, seu padre etc.). O estilo é às vezes meio piegas, as enveredadas dela pela psicologia chegam a ser meio constrangedoras, mas 90% do que está ali é precioso. Entra na Amazon somente em dezembro, infelizmente... Mas vale a pena esperar.

“In the Footsteps of Mr. Kurz”, de Michela Wrong: excelente relato da ascensão e queda de Mobutu Sese Seko, no ex-Zaire (hoje Congo).

“Chief of Station, Congo”, de Larry Devlin: na mitologia da Guerra Fria, sempre havia um sujeito malvado como Evlin _o superagente da CIA que acobertava tiranos de Terceiro Mundo. No caso, Devlin foi a mão da CIA na ascensão de Mobutu, nos anos 60. O mais incrível é que ele conta essa história (ok, não deve ser toda a história, mas é um livraço).

“I didn’t do it for you”, de Michela Wrong: esse é sobre...a Eritréia! Incrível, mas ela conseguiu transformar a história de um país periférico e pouco interessante numa bela narrativa.

“Emma’s War”, de Deborah Scroggins: esse estou lendo agora, sobre uma inglesa pertencente a uma ONG que se casa com um senhor da guerra no Sudão.

E, last but not least, há toda a obra do papa do jornalismo sobre a África, Ryszard Kapuscinski, da qual destaco três livros: “Ebano”, uma coleção de relatos sobre o continente; o superclássico “The Emperor”, sobre a corte do imperador Haile Selassie na Etiópia; e o meu preferido dele, “Another Day of Life”, um livrinho de 120 páginas que fala do início da guerra civil em Angola.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A PROVÍNCIA DO ZAIRE, EM ANGOLA

Recebi por e-mail o texto de Makuta Nkondo sobre a província do Zaire, em Angola.

Angola/“Remodelação” do Executivo:
A Província do Zaire continua a ser esquecida no Governo de Angola

 
A Província do Zaire continua a ser esquecida no Governo de Angola onde nenhum dos seus filhos exerce o cargo de ministro, embaixador, comandante da Policia nacional, contentando-se apenas com dois generais.

Para melhor esclarecimento, eis a seguir o quadro da posição política, económica e social da Província do Zaire. 

A Província do Zaire não tem nenhum ministro no Governo de Angola, apenas tem um vice-ministro, Sebastião Lukinda do MAPESS (Ministério da Administração Pública, Emprego e Segurança Social) que é natural de Mbanza-Kongo, aldeia Lambu, e um secretário de Estado da Construção, Joanes André, natural do Soyo.

Os vice-ministros e secretários de Estado são propostos pelos ministros titulares das Pastas, sendo elementos de sua confiança.

Na Defesa, a Província tem apenas dois generais, Pedro Sebastião, natural do Nzeto e proveniente das FAPLA (MPLA), e Ntonta, natural de Mbanza-Kongo,  ex-ELNA (FNLA); não tem ninguém na direcção da Policia Nacional e nenhum Embaixador. 

O Zaire conta somente com um Governador Provincial, o actual governador.

Mesmo na direcção do MPLA, o Zaire só tem Magalhães Paiva Mvunda e Pedro Sebastião no Bureau Politico (BP), pode ter alguém no Comité Central (CC), mas este é apagado e inexpressivo.

Ninguém do Zaire é funcionário sénior na Presidência da República, no Serviço de Segurança como SINFO que poderá ter mudado de nome. No Conselho da República tem um elemento na pessoa de Garcia Wanani, natural de Lambu, comuna de Luvu, e reverendo da Igreja Kimbanguista.

Os deputados à Assembleia Nacional (Parlamento) oriundos do Zaire ou pelo círculo Provincial são mudos e desconhecidos pelos “eleitores”, eles não mugem nem tugem. Quantos são e onde andam os ditos deputados pela Província do Zaire?

Como se pode facilmente concluir, a Província do Zaire não é tida nem achada no Governo do MPLA. O Zaire é completamente esquecido.

O Governador provincial e seus vice-governadores, assim como os administradores municipais e comunais são responsáveis locais que, numa verdadeira democracia, deveriam ser eleitos (escolhidos) pelas populações através das eleições autárquicas.

Na sequência da última “remodelação” do executivo, o Zaire foi contemplado com um terceiro vice-governador a quem foi encarregue a área técnica e de infra-estruturas. 

A notícia foi recebida com cepticismo, tendo em conta que muitos governantes já desfilaram por lá, mas nenhum deles conseguiu dar luz, água, saúde e educação, em suma ninguém pensou melhorar as condições de vida das populações. 

Contudo, é melhor fazer como São Tomé: ver para crer!

Senão, eis o quadro sombrio que o novo elenco governativo provincial é chamado a corrigir.
A Província do Zaire, juntamente com a de Cabinda, é um dos pulmões económicos de Angola, pois ambos produzem o Petróleo que contribui nas principais receitas de Angola, mas a terra de Ntotela (Rei, Imperador, Sultão, Farão, como quiser) não beneficia deste hidrocarboneto.

O Petróleo é produzido no litoral da Província, desde a comuna de Tabi no município de Ambriz ao Soyo, mas as refinarias foram construídas, uma em Luanda (pelo colono Português) e outra está em construção no Lobito, Província de Benguela.

A região de Ambriz foi desmembrada do Zaire e anexada à Província do Bengo, que foi criada em homenagem ao falecido António Agostinho Neto, Presidente do MPLA - no poder - e da República Popular de Angola (RPA).

O Petróleo vem do Zaire e Cabinda, em contrapartida o Instituto dos Petróleos foi construído na Província do Kwanza-sul.

Com o pretexto de guerra, a base logística dos Petróleos foi transferida da vila do Soyo para Luanda com a denominação de SONILS.

Sem exagero, no Zaire, mesmo o petróleo iluminante provem da vizinha República Democrática do Congo (RDC) e o gás de cozinha é desconhecido das populações.

Só agora é que se fala da construção no município do Soyo de uma indústria de exploração de gás através de um projecto denominado LNG. Aqui também prefere-se ver para crer o benefício que esta poderá dar aos habitantes “zairenses”, entende-se da Província do Zaire.

A Província do Zaire não tem nenhuma bomba de combustível. Os vestígios de bombas de combustíveis, assim como as novas, são permanentemente secos.

O combustível é adquirido através dos comerciantes ambulantes chamados por Kadafi, em alusão ao líder da Líbia, que é um país produtor dos petróleos.

Nem recauchutagem ou lojas de peças e acessórios para automóveis a Província tem.
Quem viaja para aquelas paragens, devem prevenir-se em levar o combustível e lubrificantes, com todos riscos possíveis.

Incrível, mas é verdade, a Província do Zaire não tem nenhuma estrada asfaltada; apenas agora se está a asfaltar a via que liga os municípios do Nzeto e Mbanza-Kongo. A obra dura anos e nunca mais acaba.

Pela Rádio, ouviu-se o SOS lançado pelo Bispo católico de Mbanza-Kongo, Dom Kiaziku, cuja viatura ficou presa na picada do Soyo de onde só saiu depois de ter sido socorrido por um camião de chineses.

Segundo os químicos, o asfalto provem do Petróleo, mas mesmo assim as estradas e ruas do Zaire são de terra batida. 

Não vai a referida Província, pior ainda a Mbanza-Kongo, na estação seca, para evitar contrair a bronquite por inalação de poeira.

Aqui, a poeira é a tinta para os móveis e imóveis, desde os edifícios as viaturas e mesmo as pessoas.
Em algumas estradas como as de Luvu e Kuimba, mesmo circulando de dia, as viaturas acendem as luzes para evitarem colidir-se com outras devido a nuvens de poeira que se levanta.

A Província do Zaire não tem prédios e hotéis. Os únicos “prédio” são nomeadamente o Palácio do Governo Provincial com dois andares, o famoso “Hotel” Estrela, que não passa de uma pousada, também com dois andares. 

Há uma nova estrutura hoteleira de alguns andares em construção na vila do Soyo, próximo da Rotunda e de um afluente do rio Zaire.

Também, a antiga Província do Kongo, baptizada por Zaire, carece de empresas nacionais; os únicos empregos existentes são, nomeadamente o MPLA, a função pública que se resume no Governo provincial e a administração local. 

As populações optam pelas “empresas” privadas todas propriedades dos governantes, com raras excepções, e as multinacionais petrolíferas como a Texaco (Chevron-Texaco), Total, Petromar, a base logística dos Petróleos de de Kwanda (lê-se Kuandá, que significa longe, distante, em língua Kikongo), entre outras, que operam em terra (On Shore) e no mar (Off Shore) ao longo do litoral da Província.

No domínio da Energia e Água, a Província não tem redes públicas de abastecimento destes produtos indispensáveis à vida moderna. Com a excepção da vila do Noki que é abastecida com a energia eléctrica antes proveniente da barragem hidro-electrica de Mpozo, da República Democrática do Congo (RDC) desde o tempo colonial e hoje de Inga, o resto da Província está mergulhada numa escuridão infernal.

A luz e a água potável são completamente desconhecidas pela população autóctone da Província que recorre ao candeeiro a petróleo, esporadicamente ao gerador “Fofando” e os mais pobres a fogueira.
A Educação e a Saúde constituem outro quebra-cabeças para a Província. Ainda existem escolas que funcionam debaixo das árvores, sem quadro, giz e livros. O corpo docente do ensino médio é constituído maioritariamente por jovens formados na RDC, os chamados Langa, com dificuldades da língua de Camões.

Quadros superiores, licenciados e doutores, oriundos da Província são raros. Os poucos quadros superiores existentes são hostilizados na Província por parte dos governantes. Há uma desunião, uma clivagem, um fosso profundo, entre os “quadros” que se mantiveram na Província durante a guerra civil e os que residem fora, em especial em Luanda, ou melhor os da diáspora. 

Com medo de perder o lugar, os “trabalhadores” residentes na Província consideram os filhos da terra com formação adequada como persona non grata. Os diplomas académicos são inválidos naquelas paragens.

Mesmo nas aldeias, a população do Zaire está profundamente dividida entre os fixados e os da diáspora, de um lado, e os membros do MPLA e os conotados com a oposição, pior ainda os que são acusados de apoiarem a UNITA, do outro lado.

Voltando a educação, há quem diz que os “professores” escrevem as vezes com carvão sobre um “quadro” feito de tronco de árvore. Recorde-se que a Província é rica em florestas densas produtoras de madeira.

Zaire não tem Universidade. Fala-se em um “Pólo de ensino superior” cuja direcção está em Cabinda. Verdade ou falso?

Quanto à saúde, existem edifícios em que são pintadas algumas cruzes vermelhas e chamados hospitais, com médicos vietnamitas – com que línguas atendem os doentes – e alguns nacionais. Mesmo assim, a quantidade de médicos, paramédicos e enfermeiros está longe de satisfazer a demanda. Os hospitais carecem de ambulâncias, camas, medicamentos e outro material essencial. 
Na ausência de ambulância, os doentes são transportados de Kipoyo (Tchipoia) e a população recorre à medicina ancestral ou tradicional, a chamada Curandaria, como no tempo medieval.

A água potável é inexistente. A simples palavra de água potável parece ser desconhecida pelas populações locais que buscam este precioso líquido aos rios e poços. 
A administração local, com a ajuda de organizações filantrópicas estrangeiras, abre poços para as comunidades, em particular as do litoral.

A água proveniente dos rios e poços é consumida bruta, sem qualquer tratamento.
A Província do Zaire é rica em recursos hídricos. A maioria das suas cidades, vilas e aldeias são banhadas pelos rios de grandes caudais.

As torneiras ou chafarizes são raros ou inexistentes nesta região setentrional de Angola. 
A Província não tem um Estádio de futebol, nem qualquer outra estrutura desportiva. Dispõe actualmente de uma equipa de futebol que é a Académica do Soyo. Mas, atenção, esta equipa comporta-se mais como pertença exclusiva do Soyo que da Província do Zaire.

Também, o Zaire não tem Porto marítimo - existem dois pontes-cais, um no Soyo e outro na vila do Noki. No domínio aeroportuário, o Zaire conta apenas com dois aeroportos para aviões de grande porte, um no Soyo que se pensa ter sido construído por atender as empresas dos Petróleos, e não o desgraçado povo indígena, e outra é a pista segregacionista de Mbanza-Kongo que divide a “cidade” – com aspecto de uma sanzala grande – entre a área onde residem os assimilados e o bairro dos indígenas. É preciso contornar longitudinalmento a referida pista para circular de um lado ao outro.
A província do Zaire nem simples lojas e farmácias tem.

Com base neste resumo, pode concluir-se que a Província do Zaire não é tida nem achada no Governo do MPLA. “E mbua eyi nkento vo mbakala, eyi keyivuete ko?” (Não se questiona o sexo de um cão, pois este anda nú) – diz uma sabedoria Kikongo.

Oxalá que a nova estrutura governamental da Província consiga corrigir este quadro sombrio. 
Makuta Nkondo

makutankondo@yahoo.com.br   

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

domingo, 2 de janeiro de 2011