Estive duas vezes na Líbia.
As duas em 2009 e as duas a trabalho, ainda como correspondente da TV Brasil na África.
Na primeira visita, em janeiro, acompanhei uma missão de empresários brasileiros, liderada pelo então ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, ao norte da África.
Em 10 dias a missão esteve na Líbia, Tunísia, Argélia e no Marrocos.
A segunda visita à Líbia foi em junho de 2009, para cobrir visita do presidente Lula ao país.
Lula era o convidado de honra da cúpula da União Africana, presidida na época pela Líbia e seu líder máximo Muamar Kadafi.
Nos quatro países visitados, só foi possível filmar na rua com autorização dos governos.
A atuação dos diplomatas brasileiros nas embaixadas nos quatro países foi essencial para conseguirmos as autorizações.
Na Líbia e na Tunísia, eu e o cinegrafista só podíamos filmar na rua se houvesse um funcionário do Ministério da Informação conosco.
Contarei primeiro sobre a segunda viagem.
Na Líbia, onde passamos mais tempo, os funcionários iam no nosso carro para todos os lugares.
Na rua, eles eram abordados o tempo todo por policiais que queriam saber o que estávamos fazendo e precisavam dar explicações e exibir autorizações.
Na segunda visita ao país, o funcionário do Ministério da Informação encarregado de nos vigiar se apresentou como Mister Sadam.
Simpático durante boa parte do tempo, Mister Sadam nos guiou pelas principais ruas de Trípoli e explicava como a Líbia era um país aberto e que permitia o trabalho da imprensa.
Pouco antes da viagem eu havia lido que o governo havia autorizado recentemente a venda de jornais e revistas americanas e europeias.
Mister Sadam disse que frequentemente acompanhava jornalistas estrangeiros filmando no país, como a CNN e a BBC.
No fim do primeiro dia de filmagens, Mister Sadam nos deixou na Praça Verde, a principal de Trípoli.
Eu perguntei se podíamos continuar filmando.
Ele disse que sim e foi embora.
Um líbio que passeava com as duas filhas pequenas se aproximou e puxou conversa comigo em inglês.
Queria saber de onde éramos, o que fazíamos ali.
Aproveitei para fazer uma curta entrevista com ele, que tinha 40 anos e nasceu no mesmo ano em que Kadafi havia assumido o poder.
Kadafi, o líder, era, portanto, o único líder que conhecera.
Depois da entrevista, continuamos na praça para fazer mais algumas imagens.
Minutos depois, um carro descaracterizado com quatro homens à paisana parou ao nosso lado.
Um deles me fez perguntas em árabe e, com as mãos, fazia um gesto indagando onde estavam meus documentos.
Como não nos entendemos, outro homem do grupo me perguntou em inglês o que fazíamos ali e onde estava nossa autorizacão para filmar.
Eu expliquei que estava na Líbia para cobrir a visita do presidente do Brasil, que chegaria no dia seguinte, e que estávamos autorizados a trabalhar.
Ele insistiu nos papeis.
Eu disse que não tinha, mas que havíamos passado o dia com Mister Sadam e que poderíamos ligar para ele.
Quando peguei o telefone e fiz menção de ligar, o sujeito disse que estava tudo bem e os quatro foram embora.
Achei que era hora de voltar para o hotel e enviar o material para o Brasil.
No dia seguinte, Mister Sadam estava novamente conosco.
O presidente Lula chegaria no fim da tarde e aproveitamos a manhã para fazer mais imagens da cidade.
A todo momento Mister Sadam tinha que explicar a policiais o que estávamos fazendo.
Pouco antes da hora do almoço, Mister Sadam recebeu um telefonema.
Quando desligou, disse que, como já haviamos filmado o suficiente, ele precisaria do carro que eu havia alugado para ir ao aeroporto porque outros jornalistas estavam chegando.
Travamos o seguinte diálogo:
EU - Mas ainda precisamos filmar mais coisas.
MISTER SADAM - Mas vocês estão filmando desde ontem. Já estão com muita coisa.
EU - Não, precisamos de mais.
MISTER SADAM - Mas eu preciso do carro para ir ao aeroporto.
EU - Mas eu também preciso do carro.
MISTER SADAM - Mas vocês não vão poder filmar sem mim. Se a polícia chegar e vocês não tiverem a autorização, serão presos.
EU - OK.
MISTER SADAM (saindo irritado do carro) - OK.
Mister Sadam bateu a porta do carro e pegou um táxi.
O motorista que eu havia contratado me explicou a história: Mister Sadam pediu para ser levado ao aeroporto. O motorista disse que estava trabalhando para mim e que só poderia levá-lo ao aeroporto se eu autorizasse. E explicou que o carro de Mister Sadam estava estacionado a poucas quadras de onde estávamos, mas ele queria ir ao aeroporto no nosso carro.
No dia seguinte, os jornalistas foram levados num dos aviões da comitiva do governo brasileiro de Trípoli para Sirte, cidade natal de kadafi e onde a cúpula da União Africana se realizava.
Às cinco da manhã todos nos encontramos no hotel onde estava a comitiva para pegar o ônibus que nos levaria à base aérea.
Eis que, às cinco da manhã, ao chegar ao hotel, encontro Mister Sadam.
Ele embarcou no ônibus alugado pelo governo brasileiro e nos acompanhou até a base aérea.
O avião estava praticamente vazio porque a comitiva do presidente já estava em Sirte e só voltaria para Trípoli no final da reunião.
Mister Sadam embarcou conosco no avião presidencial e ficou grudado no grupo todo o tempo em que estivemos em Sirte.
Na volta para Trípoli, o avião estava lotado.
Já na pista do aeroporto, a caminho do avião, ouço Mister Sadam me chamando.
Ele queria que eu confirmasse a identidade dele para o militar da Aeronáutica que fazia o controle dos passageiros.
Expliquei que Mister Sadam era funcionário do Ministério da Informação do governo, vigiava o trabalho da imprensa no país e havia chegado de manhã no avião da comitiva.
Segundo o militar me explicou, o nome de Mister Sadam não estava na lista, mas deixou que ele subisse.
Depois de todos embarcados, outros militares do Brasil questionaram Mister Sadam sobre a presença dele no avião.
Um líbio que era funcionário da Petrobras no país e integrava a comitiva serviu de intérprete entre Mister Sadam e o comandante do voo.
Mister Sadam mostrou o crachá do governo líbio e lá ficou.
Minutos depois, outro militar brasileiro vem da cabine do avião e passa um telefone celular para Mister Sadam.
Mister Sadam diz uma ou duas frases em árabe e se cala.
Levanta da poltrona e, a caminho da saída, começa a gritar em árabe. Bate a mão na cabeça, pergunta pela repórter da TV Globo e por mim.
Quando nos identificamos, ele bate de novo na cabeça e fala mais algumas frases.
Aponta o dedo para o comandante do voo e para o embaixador do Brasil.
Quando sai do avião, o comandante pede que o funcionário da Petrobras traduza o que ele disse.
Resumidamente, Mister Sadam disse que estava acompanhando os jornalistas, que levou muito sol na cabeça (por isso ele bateu a mão na cabeça, apesar de eu ainda achar que ele nos lançava alguma maldição dizendo que ficaríamos carecas como ele), que o embaixador e o comandante sabiam que ele estava no voo e que se este grupo voltasse à Líbia de novo ele não ajudaria.
Depois da explicacão, o comandante do voo disse que a ligação que Mister Sadam havia recebido era do protocolo do governo da Líbia.
As autoridades brasileiras consultaram o governo líbio sobre a presença de Mister Sadam na aeronave e receberam a informação de que ele não estava autorizado a estar ali.
O voo segue e Mister Sadam fica em Sirte, a 500km de Trípoli.
Agora, volto à primeira viagem.
Na Tunísia, tivemos que ir ao Ministério da Informação antes de filmar na rua.
Um funcionário nos acompanhou durante todo o tempo.
À medida que caminhávamos pelas ruas centrais da cidade, ele nos apontava os prédios que não poderiam ser filmados.
Um policial se aproximou para perguntar o que fazíamos e nosso guia mostrou a documentação que nos autorizava a filmar.
Nosso trabalho em Túnis foi curto, pois ficamos apenas um dia e meio na cidade.
Terminamos a filmagem e na manhã seguinte já embarcamos para a Argélia.
Em Argel, a presença policial nas ruas era ostensiva.
Barreiras policiais em vários pontos da cidade.
No banco de trás, o cinegrafista baixou o vidro para filmar imagens da cidade.
Poucos minutos depois nosso táxi foi fechado por um carro da polícia.
Quatro policiais com metralhadoras desceram e vieram em nossa direção.
Mostrei o documento que nos autorizava a filmar e nos deixaram seguir.
No Marrocos, passamos dois dias em Casablanca.
No segundo e último dia da visita, fomos fazer imagens externas.
Quando voltávamos para o carro, fomos abordados por um policial a paisana.
Ele queria ver nossa autorização de filmagem.
Quando mostrei o papel, ele disse que faltava um carimbo da prefeitura.
Como era sábado e não conseguiríamos o carimbo, teríamos que interromper a filmagem.
E como o papel que eu havia mostrado era apenas uma cópia enviada por fax, ele confiscou o documento e foi embora, alertando que não poderíamos mais filmar.
Mais relatos das duas viagens podem ser vistos aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.